Início Revista Sem categoria Preparado de Mel: Um Golpe Contra a Apicultura Brasileira

Preparado de Mel: Um Golpe Contra a Apicultura Brasileira

Por Jeovam Lemos Cavalcante, Presidente do Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (IBRAM). Secretário da Câmara Temática do Mel do Ceará, Secretário da Federação Cearense de Apicultura – FECAP e membro da Câmara Nacional do Mel.

A apicultura brasileira está sob ataque. O mercado de mel puro, construído com o suor de milhares de apicultores que dependem dessa atividade para sua subsistência, está sendo corroído pela introdução do chamado “preparado de mel” — um produto industrializado que, apesar do nome, não passa de uma mistura de xaropes de açúcar, frutose e aditivos químicos. O mais grave? O Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) não apenas permite essa distorção de mercado, mas acoberta a utilização desse produto pela indústria alimentícia, em especial no setor de laticínios, como se fosse uma alternativa legítima ao mel natural.

Concorrência Desleal e o Impacto no Setor Apícola

Antes da proliferação do “preparado de mel”, a indústria de alimentos era uma das maiores compradoras de mel puro. No entanto, diante da possibilidade de utilizar um insumo muito mais barato e que confunde o consumidor, as grandes empresas rapidamente migraram para esse substituto. O resultado? Uma queda drástica na demanda pelo mel verdadeiro, prejudicando diretamente os apicultores que já enfrentam dificuldades com os preços baixos impostos por atravessadores e exportadores.

Hoje, 95% do mel brasileiro é exportado para os Estados Unidos, tornando o setor extremamente dependente do mercado externo. Qualquer oscilação cambial ou política de restrição comercial norte-americana impacta imediatamente o preço pago ao produtor. Ao mesmo tempo, no mercado interno, o mel é desvalorizado pela concorrência do preparado industrial, que não sofre com os mesmos custos de produção, fiscalização e certificação impostos ao mel puro. Isso tem levado muitos apicultores ao abandono da atividade, agravando ainda mais a crise do setor.

O Papel do MAPA: Regulação ou Proteção à Indústria?

O Ministério da Agricultura tem sido omisso com o “preparado de mel”. Enquanto os apicultores precisam atender a normas rigorosas para garantir a qualidade e rastreabilidade do mel verdadeiro, as indústrias que utilizam esse substituto não são submetidas ao mesmo nível de controle. Isso configura uma clara proteção à indústria de alimentos em detrimento da produção nacional de mel puro.

Não há justificativa para que um produto que não é mel leve esse nome na rotulagem e na publicidade. O consumidor é enganado, a apicultura é sufocada e a biodiversidade sofre os impactos da redução da atividade apícola, fundamental para a polinização de ecossistemas naturais e agrícolas.

O Que Pode Ser Feito?

O Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (IBRAM) propõe uma série de medidas urgentes para corrigir essa injustiça:

1. Revisão das normas do MAPA sobre o “preparado de mel”, impedindo que esse produto seja comercializado com qualquer referência ao mel puro;

2. Fiscalização rigorosa sobre a indústria de laticínios e outros setores alimentícios, garantindo que o consumidor tenha acesso à informação verdadeira sobre o que está consumindo;

3. Campanhas de valorização do mel puro no mercado interno, incentivando a compra direta de apicultores e cooperativas;

4. Inclusão do mel puro em programas governamentais como o PNAE e a CONAB, fortalecendo sua comercialização dentro do Brasil;

5. Políticas de subsídio e incentivo para a apicultura, garantindo que a atividade continue viável para pequenos e médios produtores. A apicultura no Brasil é, essencialmente, uma atividade de subsistência. Não existem grandes produtores de mel no país — não mais do que dois ou três apicultores possuem mais de 1000 colmeias. A média da atividade gira entre 100 a 200 colmeias por produtor, tornando a necessidade de apoio e incentivos ainda mais urgente.

A Luta Pela Sobrevivência da Apicultura

Se o governo brasileiro continuar permitindo que o mercado seja inundado por produtos que desvalorizam o mel verdadeiro, a apicultura brasileira está fadada ao colapso. A substituição do mel puro por misturas baratas é um crime contra os produtores, contra os consumidores e contra o meio ambiente.

O MAPA deve decidir se continuará protegendo os interesses da indústria ou se tomará as medidas necessárias para garantir a sobrevivência de um dos setores mais essenciais para a biodiversidade e a economia do Brasil. O IBRAM está comprometido em levar essa luta adiante e não medirá esforços para defender os direitos dos apicultores.

Nada adianta essa política de incentivo à apicultura, tais como a construção de casas de mel, fornecimento de apetrechos, colméias, macacões — isso é apenas um paliativo e serve como fonte inesgotável de recursos que nunca chegam de verdade ao seu destino. São inúmeros os programas governamentais, tanto na esfera estadual quanto na federal, mas eles não atacam o verdadeiro problema: o consumo do mel, a venda do mel. Se o apicultor tiver venda, ele sabe produzir, ele é capacitado, mas, ao ficar à mercê do atravessador, não há ajuda que resolva. É como enxugar gelo. São estudos e mais estudos, congressos, simpósios, mas tudo na esfera acadêmica, sem qualquer resultado real.

Leis de apicultura que protegem o mel são fundamentais, mas o incentivo à compra de mel na merenda escolar, nos hospitais e em programas sociais deveria ser prioridade. Os preços nas prateleiras dos supermercados são exorbitantes, desestimulando os consumidores, e o mel verdadeiro segue menosprezado por grandes redes de varejo.

A apicultura não pode ser relegada ao esquecimento. Sem abelhas, sem polinização, sem biodiversidade, sem futuro. Como bem afirmou Albert Einstein: “Se as abelhas desaparecerem da face da Terra, a humanidade terá apenas mais quatro anos de existência.” É hora de agir!

Adicionar comentário

Inscreva-se para receber as últimas
atualizações e novidades

© 2024 Ibram Brasil