IBRAM apoia seminário da UERJ sobre agrotóxicos, mas cobra debate sobre critérios de aprovação GeoIBRAM 9 de abril de 2026 Regulação & Saúde
Instituto questiona o modelo Bee-Rex e a aprovação por equivalência técnica — com registros anteriores a 2017 — como a “causa eficiente” dos danos à saúde humana e aos polinizadores nativos brasileiros.
IBRAM Brasil Corrente da Legalidade 9 abr. 2026
O Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (IBRAM Brasil) manifestou apoio ao seminário “Ciência, café e prosa”, promovido nesta quinta-feira (9) pelo Programa de Pós-graduação em Alimentação, Nutrição e Saúde da UERJ, mas alertou que o debate sobre agrotóxicos precisa avançar além dos efeitos sobre a saúde humana para alcançar a raiz regulatória do problema: os critérios pelos quais esses produtos são aprovados.
A palestra do professor Armando Meyer, do Instituto de Estudos em Saúde Coletiva da UFRJ (IESC/UFRJ), aborda as exposições a agrotóxicos e seus efeitos em humanos. Para o IBRAM, esse olhar é necessário, mas insuficiente. “Tratar apenas dos efeitos é caminhar diretamente à causa final, sem passar pela causa eficiente: os critérios pelos quais esses produtos foram aprovados”, afirmou o instituto em nota.
Sobre o evento
- Seminário “Ciência, café e prosa” — UERJ
- Palestra: Exposições a agrotóxicos e seus efeitos na saúde
- Palestrante: Prof. Armando Meyer (IESC/UFRJ)
- Local: Instituto de Nutrição, Sala 12030 E, 12º andar — Campus Maracanã
- 9 de abril de 2026 · 10h às 12h · Entrada livre, sem inscrição prévia
A lacuna no modelo Bee-Rex
O IBRAM aponta três falhas estruturais no sistema de avaliação vigente. A primeira é o uso do modelo Bee-Rex, adotado pelo IBAMA somente em 2017 e baseado quase exclusivamente na abelha Apis mellifera — espécie europeia com ferrão, importada de protocolos norte-americanos da OCDE e da EPA. As abelhas nativas brasileiras, com fisiologia e comportamento radicalmente distintos, foram completamente ignoradas nesse modelo original.
A segunda falha é a atualização parcial de 2022, quando o modelo passou a incluir apenas três espécies de abelhas nativas: a uruçu (Melipona scutellaris), a jataí (Tetragonisca angustula) e a mandaguari (Scaptotrigona postica). A inclusão está condicionada ao atingimento de um limiar denominado “quociente 0,4”, e há sérias dúvidas técnicas sobre se esse protocolo foi efetivamente aplicado em condições reais com essas espécies. Pesquisa da UNESP com a professora doutora Isabella Lippi demonstrou que 72% das espécies de abelhas nativas são mais sensíveis a agrotóxicos do que a Apis mellifera — dado que o modelo atual é incapaz de capturar adequadamente.
Aprovação por equivalência técnica: o maior risco
O terceiro e mais grave ponto levantado pelo instituto é a prática da aprovação por equivalência técnica. Por esse mecanismo, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) concede registro a novos agrotóxicos tomando como referência produtos registrados antes de 2017 — avaliados, portanto, sem qualquer consideração pelos critérios do Bee-Rex e sem qualquer referência às abelhas sem ferrão. Atos publicados no Diário Oficial da União em 2026 indicam que dezenas de produtos ingressaram no mercado por esse caminho, sem nova avaliação de risco ecotoxicológico.
Para o IBRAM, a cadeia de impacto é direta: o agrotóxico que elimina polinizadores nativos por falha no modelo de teste é o mesmo que contamina solo e água, chegando ao alimento consumido pela população. “Discutir apenas os efeitos na saúde é um olhar de remediação. Discutir os modelos de análise de risco é um olhar de prevenção científica e política”, conclui o instituto.
O IBRAM reafirma seu apoio ao espaço acadêmico aberto pela UERJ e espera que o debate se expanda para conectar a toxicologia clínica ao vácuo regulatório que está na origem do problema.
Nota do IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura · CNPJ 54.774.141/0001-90
Publicado em: geoibram.com

