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Pequi, Arapuá e Drone: O Sertão que Gonzaga Não Viu
O Rei do Baião cantou o pequi e o zumbido da arapuá como riqueza do sertão. Hoje, três inimigos ameaçam esse equilíbrio: o drone ilegal, o agrotóxico contrabandeado e o BEE-REX — o modelo que não sabe que a arapuá existe.
Por Jeovam Lemos Cavalcante | Presidente do IBRAM | Março de 2026
📖 Corrente da Legalidade — Saga do BEE-REX
- A Ciência Confirmou o que Você Já Suspeitava
- Meliponíneos São Mais Vulneráveis a Agrotóxicos — e o BEE-REX Ignora Isso
- BEE-REX: O Exterminador que Ressuscitou na Calada da Noite
- Três Leis, Três Vácuos e Um Drone
- ▶ Pequi, Arapuá e Drone: O Sertão que Gonzaga Não Viu (você está aqui)
Luiz Gonzaga e Zé Dantas cantaram o sertão com todos os seus seres — os frutos, as plantas, as abelhas. O pequi estava lá. A arapuá estava lá. O sertão era uma teia viva, e o Rei do Baião sabia disso antes de qualquer norma ambiental. — Referência ao ABC do Sertão, Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1953
Imagine um goiano sem pequi. O arroz que não vai à mesa, o licor que não vai à festa, o cheiro que não vai à memória. Para o goiano, para o cratense, para o povo do Cariri e da Chapada do Araripe, o pequi não é ingrediente — é identidade.
Luiz Gonzaga sabia disso. No ABC do Sertão, imortalizou os elementos vivos do semiárido nordestino — os frutos, as plantas, os bichos que fazem o sertão pulsar. Entre eles, a arapuá — chamada pelo povo de “arauá” — a abelha mais abundante do Cerrado e da Caatinga.
O IBRAM traz hoje uma denúncia sobre três inimigos que ameaçam esse equilíbrio — e que não têm nada a ver com o produtor rural, o apicultor ou o meliponicultor, que são parceiros nessa luta. Os inimigos têm nome: o drone ilegal, o agrotóxico contrabandeado e o BEE-REX — o modelo regulatório que não sabe que a arapuá existe.
1. A Abelha que o BEE-REX Nunca Viu
A Arapuá (Trigona spinipes) é provavelmente a abelha nativa mais abundante do Brasil. Está no Cerrado, na Caatinga, na Mata Atlântica. É pequena, preta, sem ferrão — e completamente invisível para a regulação brasileira de agrotóxicos.
🐝 Quem é a Arapuá
- Espécie: Trigona spinipes — meliponínea nativa, sem ferrão
- Bioma: Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica — uma das mais resilientes do Brasil
- Papel ecológico: polinizadora de plantas silvestres nativas, visitante diurna do pequizeiro, construtora de ninhos que viram abrigo de aves após o abandono
- Status no BEE-REX: inexistente — o modelo usa apenas a Apis mellifera europeia como referência
- Status regulatório: sem cadastro, sem norma que a proteja pelo nome, sem meliponicultor que responda por ela na mata
O ponto central: quando um agrotóxico é avaliado pelo BEE-REX e aprovado com QR menor que 0,4, nenhuma abelha nativa é testada — nem a Arapuá, nem a Jandaíra, nem nenhuma das mais de 2.000 espécies que habitam nossos biomas. A Arapuá que poliniza o pequizeiro simplesmente não existe para o sistema regulatório.
2. O Pequi Depende de Quem Ninguém Protege
O pequizeiro (Caryocar brasiliense) é uma das árvores símbolo do Cerrado. Seu principal polinizador é o morcego — visitante noturno essencial. Mas a Arapuá é uma das visitantes diurnas mais frequentes, cumprindo o que os ecólogos chamam de redundância ecológica — um plano B que protege a planta quando o polinizador principal está ausente.
Retire a Arapuá do Cerrado e o pequizeiro não desaparece imediatamente. Mas perde resiliência. Perde diversidade genética. Perde a visitante que trabalhava enquanto o morcego dormia. E o produtor rural que depende do pequi para o extrativismo, para a venda, para a mesa — perde sem saber por quê.
O produtor rural goiano, o extrativista do Cerrado, o apicultor do Cariri — nenhum deles é inimigo da Arapuá. Na maioria das vezes, nem sabem que ela existe como polinizadora do pequi. O inimigo não é o campo. É o que vem de fora do campo sem aviso, sem cadastro e sem lei.
3. Os Três Inimigos que o Sertão Não Conhecia
A ameaça ao pequi e à Arapuá não vem do produtor rural que planta, colhe e cuida da terra. Vem de três vetores que operam fora da lei, fora do cadastro e fora de qualquer controle:
- O drone ilegal: operado sem cadastro no MAPA, sem notificação prévia aos meliponiculturistas e apicultores no raio de 6 km exigido pela IN 02/2008, sem respeito às distâncias mínimas. A nuvem que ele despeja não escolhe alvo — cai sobre lavoura, mata ciliar, pequizeiro e ninho de Arapuá com a mesma indiferença.
- O agrotóxico contrabandeado: sem rótulo, sem registro, sem dose conhecida, sem avaliação de risco nenhuma. Ninguém sabe o que está no tanque. Ninguém saberá o que matou. O BEE-REX nem chegou a avaliar — porque esse produto nunca passou por avaliação alguma.
- O BEE-REX como sistema: o modelo regulatório importado dos EUA que usa a Apis mellifera europeia como única referência. Produtos aprovados com QR menor que 0,4 chegam ao campo sem nenhum teste com abelhas nativas. A Arapuá, o pequi e o Cerrado pagam o preço de uma avaliação feita para outro país, outro clima, outra abelha.
O desmatamento químico por drone: drones aplicando Glifosato — o “Mata Pasto” — sobre vegetação nativa do Cerrado para abertura de pastagem não é pulverização agrícola. É supressão ilegal de vegetação por via aérea, sem licença, sem notificação, sem responsável identificado. Quando a nuvem cai sobre um pequizeiro ou um ninho de Arapuá, não há meliponicultor que recolha, não há apicultor que feche as caixas. A abelha simplesmente recebe o veneno e some.
4. O que Gonzaga Sabia que a Regulação Ainda Não Aprendeu
Luiz Gonzaga cantou o sertão como sistema vivo. O povo do Crato, do Cariri, da Chapada do Araripe conhece o pequi pelo cheiro, a arapuá pelo zumbido, o Cerrado pela memória. Esse conhecimento popular antecede qualquer norma — e por isso resiste quando a norma falha.
A regulação ambiental brasileira ainda não aprendeu o que o Rei do Baião já sabia: que tudo está conectado. Que a abelha invisível poliniza o fruto que todo mundo ama. Que o drone que não tem dono destrói o que levou milhões de anos para se construir.
O sertão que Gonzaga cantou não precisa de veneno caindo do céu sem controle. Precisa de legalidade — de drones cadastrados, de agrotóxicos avaliados com as abelhas certas, de uma regulação que saiba que a Arapuá existe e que o pequi depende dela.
O IBRAM defende a Arapuá — não porque ela produz mel comercial, mas porque ela existe, porque o Cerrado precisa dela e porque ignorá-la é cometer o mesmo erro que cometemos com tudo que só valorizamos depois que some. Apicultores, meliponiculturistas e produtores rurais estão do mesmo lado dessa luta — contra os que operam fora da lei e contra o modelo que não os representa.
🐝
O SERTÃO TEM MEMÓRIA — E NÓS SOMOS ELA
Apicultor, meliponicultor, produtor rural — vocês são parceiros, não adversários. O inimigo é o drone sem cadastro, o veneno sem rótulo e o modelo que não enxerga nossas abelhas.
Cadastre seu meliponário no GeoIBRAM e registre ocorrências de pulverizações ilegais — inclusive drones operando sem notificação sobre o Cerrado.
Cada registro é um elo da Corrente da Legalidade. Cada elo defende a Arapuá, o pequi e tudo que o sertão ainda guarda.📍 CADASTRE-SE NO GEOIBRAM
Gratuito · Georreferenciado · ibrambrasil.org.br/
O IBRAM Está no Campo — e no Cerrado Também
A Corrente da Legalidade é de todos que dependem dos polinizadores nativos — meliponiculturistas, apicultores, produtores rurais, extrativistas do pequi, comunidades do Cerrado. Todos estão do mesmo lado: o lado da legalidade, do cadastro, da notificação prévia e da ciência que o BEE-REX ainda não aprendeu a aplicar.
O IBRAM irá formalizar requerimento via Lei de Acesso à Informação (LAI) para obter dados sobre o uso de drones em áreas de Cerrado e continuará pressionando, junto à Câmara Setorial do Mel no MAPA, pela revisão do BEE-REX com base na biodiversidade real do Brasil — que inclui a Arapuá, o pequi e tudo que Gonzaga sabia que merecia ser cantado.
A ferramenta está disponível. O elo que falta é o seu.
IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
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