O Alerta que o Tempo Apenas Reforçou: Abelhas Nativas sem Proteção Regulatória

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Já se passaram anos desde que a comunidade científica brasileira, liderada por instituições de excelência como a Embrapa, acendeu o sinal amarelo para uma lacuna crítica na nossa legislação ambiental e agrícola: a ausência de protocolos de análise específicos para as nossas abelhas nativas nos processos de avaliação de riscos e aprovação de tecnologias no campo.

Embora a espécie europeia (Apis mellifera) seja o padrão global de testes, o Brasil abriga uma riqueza inestimável de mais de 1.700 espécies de abelhas nativas — muitas delas sem ferrão — que são as verdadeiras guardiãs da nossa biodiversidade e pilares da produtividade de culturas essenciais como o café, o maracujá e o algodão. O artigo que reproduzimos abaixo na íntegra, fruto de discussões iniciadas ainda em 2017, demonstra que a ciência já previa a necessidade de um olhar mais rigoroso sobre os efeitos subletais de novas tecnologias e agrotóxicos sobre nossa fauna polinizadora.

A Urgência da Prática: Proteja seu Meliponário e Apiário

A ciência faz a sua parte alertando, mas o produtor precisa agir para garantir a segurança de sua produção. Em um cenário de coexistência entre a agricultura e a criação de abelhas, a informação é a maior ferramenta de defesa.

É fundamental que o setor se mobilize para mitigar os impactos da pulverização por agrotóxicos. Por isso, o GEOIBRAM reforça: a tecnologia e o mapeamento são os seus maiores aliados.

CTA: Não deixe seu investimento e a vida de suas colmeias à mercê da falta de informação. Cadastre hoje mesmo seus apiários e meliponários no ibrambrasil.org.br/. O mapeamento preciso é o que permite a comunicação direta com os sistemas de pulverização e garante que as autoridades e vizinhos saibam onde a vida deve ser preservada.


Confira a seguir o artigo completo da Embrapa sobre a importância das abelhas nativas na biossegurança brasileira:

Os procedimentos de biossegurança adotados hoje no País abrangem apenas a espécie europeia Apis melífera.

A inserção de espécies nativas de abelhas nos procedimentos de biossegurança no Brasil é uma das recomendações que a pesquisadora da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia Carmen Pires vai sugerir durante sua apresentação no Simpósio sobre Perda de Abelhas no Brasil, que acontece de 16 a 18 de outubro de 2017, em Teresina, PI. Carmen vai falar sobre a avaliação do possível impacto das plantas geneticamente modificadas nas condições de abelhas e esta será uma das principais orientações nesse sentido. Estima-se que no Brasil existam cerca de 1.700 espécies de abelhas. Boa parte dessa fauna atua na polinização de 89% da flora nativa e, por isso, é fundamental que sejam inseridas nas análises de biossegurança, que hoje só compartilham a espécie Apis melífera, também conhecida como abelha europeia, por ser a de maior incidência no Brasil e no mundo.

As abelhas desempenham um papel muito importante na produção de alimentos. Cerca de 70% das plantas utilizadas no consumo humano dependem de certo grau de polinização. No Brasil, das 141 espécies de plantas cultivadas para uso na alimentação humana, produção animal, biodiesel e fibras, aproximadamente 60%, ou seja, 85 espécies distribuídas em diferentes graus dos serviços prestados pelos agentes polinizadores.  

Plantas GM não representam riscos às abelhas no Brasil, mas medidas preventivas devem ser adotadas

Carmen tem participado de diversos estudos nacionais e internacionais em prol da preservação das abelhas e afirma que hoje as plantas geneticamente modificadas não figuram entre as principais ameaças a esses polinizadores nem no Brasil nem no mundo. A perda de colônias de abelhas, conhecida mundialmente como síndrome de distúrbio do distúrbio das colônias (CCD, sigla em inglês) está associada a quatro fatores principais: redução dos habitats, uso excessivo de agrotóxicos, redução de alimentos como consequência de grandes áreas de monocultura e ataques de pragas.

Entretanto, ações de prevenção são fundamentais e fazem parte da análise de risco ambiental (ARA), que será o tema apresentado pela pesquisadora no evento em Teresina. Trata-se de um processo que utiliza as informações e os dados disponíveis para estimar a probabilidade de que um fator de estresse resulte em um evento ecológico indesejado. Para isso, é fundamental caracterizar as novidades atuais e futuras nos ecossistemas.

Segundo Carmen, existem hoje 75 produtos transgênicos liberados para cultivo no Brasil. Desses, 44 são de milho, 15 de algodão, 13 de soja, um de cana de açúcar, um de feijão e um de eucalipto. Grande parte foi desenvolvida a partir da introdução de genes oriundos da bactéria Bacillus thruringiensis (Bt), que confere resistência às práticas agrícolas. Essa bactéria é usada há mais de quatro décadas no controle biológico de insetos em nível global, sem nenhum registro de danos à saúde humana, de animais ou ao meio ambiente.

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Mesmo assim, as análises de biossegurança são realizadas pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) no Brasil, que são bastante rigorosas, pressupõem a realização de testes com abelhas. Análises realizadas desde 1996 até os dias de hoje comprovaram que os genes oriundos da bactéria Bt não afetaram abelhas da espécie Apis melífera. “Mas, reitero que é importante ampliar essas avaliações para abelhas nativas, especialmente se considerarmos a riqueza da fauna brasileira”, insistiu a pesquisadora.
 
Pouco conhecimento da fauna de abelhas também é risco

O pouco conhecimento sobre a diversidade de abelhas em áreas de produção agrícola também é um fator de risco a ser considerado. “Hoje sabemos que cerca de 1.700 espécies de abelhas agem como polinizadores na flora nativa, mas não temos dados precisos em relação às áreas agrícolas”, destaca Carmen. As informações disponíveis apontam que 13 espécies de abelhas, incluindo Apis mellifera, visitam os cultivos de soja; apenas três os de milho e um os de trigo. Segundo Carmen, “essa quantidade de espécies de abelhas é muito pequena e com certeza é o resultado dos pouquíssimos levantamentos realizados nessas culturas”.

Existem culturas 100% dependentes da visitação de abelhas, como é o caso do maracujá e da abóbora, entre outras. Mas, mesmo que não sejam totalmente dependentes, beneficiam-se em algum grau dos serviços de polinização, como o café, o algodão, além de muitas espécies de frutas.

Um trabalho capitaneado pelo Ministério do Meio Ambiente, do qual Carmen participou comprovou a importância da polinização feita por abelhas na cultura de algodão. O projeto denominado “Rede de Pesquisa dos Polinizadores do Algodoeiro (PoAL)”, executado em parceria entre a Embrapa, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade de Brasília e o Projeto Dom Helder Câmara da Secretaria Especial de Agricultura Familiar e do Desenvolvimento Agrário, avaliou a importância desses polinizadores para a cotonicultura em três biomas, nos quais o algodão tem grande expressão econômica e social: o Cerrado, o sul da região Amazônica e a Caatinga três anos: 2010 a 2012.

O projeto descobriu um inventário de espécies de abelhas que visitam os cultivos de algodão e tradições mais de 100 espécies nativas ainda não registradas no algodoeiro no Brasil. Dessas, dez podem ser novas.

O projeto com o algodão foi uma das sete iniciativas em rede distintas também ao monitoramento da ação de abelhas nas culturas de: melão, castanha do Brasil, tomate, caju, maçã e canola. Dessas, três foram coordenadas pela Embrapa: algodão, melão e castanha do Brasil. O objetivo foi avaliar a relação entre polinização e segurança alimentar.

“Antes de iniciar o projeto, não esperávamos que houvesse uma diversidade tão grande de abelhas nos cultivos de algodão. É preciso que esse conhecimento se expanda para as outras culturas agrícolas de importância para o País. O conhecimento facilita a conservação”, enfatiza Carmen.

Precaução com OGMs é recomendação internacional

Carmen fez parte também de um estudo internacional coordenado pela Plataforma Intergovernamental para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES, sigla em inglês) que reuniu especialistas de sete países – Reino Unido, Brasil, Suécia, México, Austrália, Argentina e Japão – para avaliar o declínio das populações de abelhas no mundo. O estudo, publicado na Revista Science , aponta 10 diretrizes para auxiliar os governantes mundiais na elaboração de políticas públicas em prol da preservação de abelhas. Uma delas defende a inclusão de efeitos indiretos e subletais na avaliação de riscos de culturas geneticamente modificadas. Outras são:

– Aprimorar os padrões regulatórios de pesticidas.
– Promover o manejo integrado de regras (MIP).
– Regular o movimento dos polinizadores gerenciados entre os países.
– Desenvolver incentivos, tais como seguros, para incentivar os agricultores a utilizar serviços ecossistêmicos, como polinização, ao invés de agroquímicos.
– Reconhecer a polinização como um insumo agrícola nos serviços de extensão.
– Apoiar sistemas agrícolas diversificados.
– Conservar e restaurar os habitats de polinizadores nas paisagens agrícolas e urbanas.
– Desenvolver o monitoramento de polinizadores a longo prazo
– Financiar pesquisas participativas para intensificar o uso de práticas de agricultura orgânica, diversificadas e ecologicamente corretas.

O Simpósio sobre Perda de Abelhas no Brasil é uma promoção da Embrapa Meio-Norte e reúne especialistas de diversas instituições de pesquisa e ensino brasileiro em Teresina, PI, entre os dias 16 e 18 de outubro de 2017. Confira mais informações no endereço: https://www.embrapa.br/meio-norte/simposio-perda-abelhas.

Fernanda Diniz (MTb 4685/DF)
Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia

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