O valor econômico da polinização alcançou aproximadamente R$ 18,3 milhões por ano em culturas agrícolas do município de Bandeirantes, no Paraná. Pesquisadores vinculados à Universidade Estadual do Norte do Paraná — UENP chegaram a esse resultado por meio de estudo científico, e não de mera opinião sobre a importância das abelhas.
O valor não corresponde à produção de mel. Tampouco representa subsídio ou benefício assistencial. Trata-se da estimativa econômica de um serviço ambiental que favorece a produtividade das lavouras, a formação de frutos e sementes e a conservação da biodiversidade.
Uma homenagem aos pesquisadores
O artigo científico Valoração dos Serviços Ambientais: a importância da polinização como gestão ambiental nas áreas agrícolas foi elaborado por:
- Elisângela Milani de Souza Moretti, mestre em Agronomia pela Universidade Estadual do Norte do Paraná;
- Teresinha Esteves da Silveira Reis, doutora em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina e vinculada à UENP;
- Luiz Carlos Reis, doutor em Agronomia pela Universidade Estadual de Londrina e vinculado à UENP.
Ao apresentar esse trabalho, o Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura — IBRAM homenageia os pesquisadores que transformaram um benefício ambiental normalmente invisível em informação econômica compreensível.
A ciência identificou o serviço, aplicou uma metodologia e estimou seu valor. Portanto, cabe ao poder público e à sociedade transformar esse conhecimento em políticas capazes de reconhecer quem efetivamente presta o serviço ambiental.
Como calcularam o valor econômico da polinização?
Os pesquisadores utilizaram dados da produção agrícola de 2019 referentes a café, soja, laranja, tomate, maracujá, uva e feijão.
Para fazer a estimativa, aplicaram a seguinte relação:
Valor da polinização = grau de dependência da cultura × valor anual da produção.
Cada cultura apresenta um nível diferente de dependência dos polinizadores. Assim, a pesquisa multiplicou essa taxa pelo valor da respectiva produção agrícola.
As culturas avaliadas alcançaram, conjuntamente, produção anual de aproximadamente R$ 79,17 milhões. Desse total, o estudo atribuiu R$ 18.302.750,00 à polinização, o equivalente a cerca de 23% do valor da produção analisada.
Na soja, principal cultura do município, a estimativa chegou a R$ 15,62 milhões. Segundo os autores, o benefício correspondeu a um incremento equivalente a 11,25 sacas por hectare.
Esses números referem-se às culturas e aos dados econômicos de Bandeirantes/PR. Por isso, não devem ser automaticamente projetados para todos os municípios brasileiros. Essa delimitação, contudo, não reduz a importância da pesquisa. Pelo contrário, demonstra que o valor econômico da polinização pode ser estimado por critérios técnicos e dados verificáveis.
A riqueza que não aparece no preço do mel
Enquanto coleta néctar e pólen, a abelha transporta material genético entre as flores. Consequentemente, favorece a fecundação, a formação de frutos e sementes, a produtividade agrícola e a diversidade vegetal.
O mel possui preço de mercado. A cera, a própolis e outros produtos da colmeia também podem ser comercializados. Entretanto, o serviço ambiental prestado pelas abelhas permanece, quase sempre, sem remuneração.
Os R$ 18,3 milhões estimados no estudo não foram pagos aos apicultores. O benefício econômico permaneceu distribuído entre as culturas agrícolas favorecidas pela ação dos polinizadores.
Nesse ponto surge uma das maiores contradições da apicultura brasileira: o produtor recebe apenas pelo mel, embora suas abelhas gerem benefícios econômicos e ambientais muito superiores.
Essa situação atinge principalmente a apicultura familiar e de subsistência. Existem políticas públicas nas esferas federal, estadual e municipal, mas muitas delas são eventuais. Além disso, compras institucionais esporádicas não refletem necessariamente o preço praticado diariamente pelos entrepostos.
O IBRAM não desmerece essas políticas. Contudo, distribuir equipamentos ou adquirir mel ocasionalmente não resolve a fragilidade econômica estrutural do apicultor.
O valor econômico da polinização justifica o PSA
O Pagamento por Serviços Ambientais — PSA não constitui assistencialismo.
No assistencialismo, o poder público concede o recurso em razão de uma situação de necessidade. No PSA, o provedor recebe porque executou e comprovou um serviço ambiental.
O apicultor não deve receber simplesmente porque possui colmeias. Deve ser remunerado quando demonstrar que mantém polinizadores, protege as colônias, adota práticas ambientais adequadas e gera benefícios mensuráveis para a agricultura e para a biodiversidade.
A Lei nº 14.119/2021 instituiu a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais e reconheceu os benefícios relevantes produzidos pelos ecossistemas.
O IBRAM também já explicou como o pagamento por serviços ambientais na apicultura pode reconhecer e remunerar os provedores ambientais.
O estudo e a Lei nº 14.119/2021
A pesquisa utilizou dados agrícolas de 2019, anteriores à Lei nº 14.119, sancionada em 13 de janeiro de 2021. O periódico recebeu o artigo em 30 de junho e o publicou em julho daquele ano.
Por rigor histórico, não se pode afirmar que a lei tenha se inspirado especificamente nesse artigo, pois sua publicação ocorreu depois da sanção. Entretanto, o conteúdo demonstra que a pesquisa acadêmica já desenvolvia os fundamentos científicos e econômicos que justificam o PSA.
Essa precisão cronológica não desmerece a percepção defendida pelo IBRAM. Ao contrário, revela uma clara convergência entre ciência e legislação: ambas reconhecem que a natureza produz benefícios econômicos e que os responsáveis por mantê-los não podem continuar invisíveis.
A ciência mostrou o caminho
O trabalho de Elisângela Milani de Souza Moretti, Teresinha Esteves da Silveira Reis e Luiz Carlos Reis oferece uma contribuição relevante ao debate nacional.
Os pesquisadores demonstraram que o trabalho das abelhas pode ser convertido em informação econômica. Além disso, comprovaram que a riqueza produzida pela polinização ultrapassa os limites da colmeia e alcança toda a cadeia agrícola.
A abelha vale muito mais do que o mel que produz.
Reconhecer o valor econômico da polinização significa reconhecer o trabalho do apicultor, a importância da ciência e a necessidade de proteger os polinizadores.
A pesquisa apresentou as evidências. A legislação criou o instrumento. Agora, precisamos fazer o PSA chegar a quem mantém as abelhas vivas e trabalhando no campo.
Essa é a preocupação do IBRAM. Essa é também a nossa homenagem à ciência brasileira.
Fonte científica: MORETTI, Elisângela Milani de Souza; REIS, Teresinha Esteves da Silveira; REIS, Luiz Carlos. Valoração dos Serviços Ambientais: a importância da polinização como gestão ambiental nas áreas agrícolas. Brazilian Journal of Development, v. 7, n. 7, p. 75357–75377, 2021. Acesse o artigo científico.

