
Fortaleza, 25 de junho de 2026. Na PECBRASIL 2026, o mel semiárido cearense está ausente dos pavilhões principais. No Centro de Eventos de Fortaleza, stands milionários de grandes empresas de frutas, flores, laticínios e multinacionais de insumos dominam o espaço. É o agronegócio em toda a sua potência — mas sem o mel do semiárido.
- Mel Semiárido na PECBRASIL: Havia um Tempo em que o Apicultor Cearense Tinha Stand Próprio
- O SENAR Treina. A FAEC Mobiliza. E o Mel Não Tem Preço.
- Mel Semiárido na PECBRASIL 2026 — e nas Prateleiras dos Supermercados Cearenses
- Por que o Mel do Semiárido não Compete na Gôndola
- O Paradoxo: o Mel que a Bélgica Compra, o Brasil Não Vê
- O que Seria o Semiárido com o Mercado Interno Funcionando
- O Brasileiro Consome Mel — Mas Não Sabe que É Xarope
- O Entreposto que Fechou e as 30 Toneladas que Sumiram
- Macacão, Colmeia e Cera — O Assistencialismo que Não Resolve
- Um Industrial do Agronegócio — Tratado como Feirante
- O que Acontece Quando a Prateleira For do Mel Verdadeiro
- Mel Puro x Preparado de Mel: A Diferença que Não Aparece no Rótulo
- Perguntas Frequentes
- Por que o mel cearense não está nas prateleiras dos supermercados?
- O que é o preparado de mel?
- O mel cristalizado é estragado?
- Existe processo judicial sobre o preparado de mel?
- Por que o mel cearense é exportado em vez de vendido aqui?
- Dados e Fontes — Tudo Verificável
Num canto da feira, na ala chamada de “feira dos municípios”, estão os apicultores. Chegaram em caravanas. No entanto, não foi o movimento apícola que os trouxe — foram os sindicatos dos produtores rurais, braços da FAEC espalhados pelo interior, que organizaram o transporte. Sem essa ajuda, a maioria deles não estaria aqui. As associações de apicultura existem, mas não têm recursos para trazer ninguém.
Eles montam suas banquinhas. Alguns trazem potes de mel, frequentemente sem SIF. Chegam com esperança. No fim, porém, ficam ouvindo palestras técnicas que não enfrentam a pergunta mais simples e mais urgente: onde está o comprador do meu mel?
Mel Semiárido na PECBRASIL: Havia um Tempo em que o Apicultor Cearense Tinha Stand Próprio
Uma Feira que Cresceu — e Deixou o Apicultor para Trás
Os apicultores mais antigos lembram de outra PECBRASIL — ou melhor, de outra PEC Nordeste, como era chamada antes. Havia um stand próprio da Federação Cearense de Apicultura — Fecap. Ali se discutia apicultura, se fazia negócio, se via o setor como setor. Empresas como Mel Esperança, do Grupo Edson Queiroz, e Néctar Floral expunham em pé de igualdade com as grandes marcas da feira. A apicultura cearense tinha rosto, tinha stand, tinha voz.
Esse tempo acabou. A Fecap sobrevive, mas sem renda própria — depende de contribuições esparsas e irregulares das associações de apicultores espalhadas pelo estado, que tampouco têm recursos. Tenta se manter ativa, tenta representar o setor; todavia, o preparado de mel é mais forte do que qualquer esforço institucional sem respaldo econômico. O Mel Esperança saiu do mercado. O stand apícola desapareceu da feira. Em consequência, o que sobrou foi a banquinha no canto — e a caravana do sindicato.
O que aconteceu nesse intervalo? Essa é a pergunta que ninguém faz nos auditórios da PECBRASIL.
O SENAR Treina. A FAEC Mobiliza. E o Mel Não Tem Preço.
O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural tem um trabalho real de capacitação técnica. Da mesma forma, os sindicatos rurais ligados à FAEC organizam caravanas, mobilizam apicultores, enchem auditórios. O governo distribui macacões, colmeias, cera. Além disso, rotas do mel são lançadas com certo alarde.
No entanto, no final da feira, o apicultor volta para casa com uma questão sem resposta: quanto vale o mel que produzi?
O mel cearense é comprado no campo entre R$ 15,00 e R$ 16,00 o quilo — mas não pelo mercado interno. Quem paga esse valor são os atravessadores dos grandes entrepostos exportadores, localizados principalmente no Sudeste, e das grandes cooperativas do Piauí. Cerca de 90% da produção cearense sai do estado por esse canal, embarcando pelos contêineres do Porto do Pecém. O apicultor recebe o preço, mas não escolhe o destino — e não tem alternativa. O mel cearense é cobiçado lá fora. Aqui dentro, não tem mercado.
Por que não tem mercado interno? Portanto, para entender essa ausência, vá ao supermercado e observe as gôndolas — ou leia o que o IBRAM já documentou sobre o preparado de mel e o processo no TRF5.
Mel Semiárido na PECBRASIL 2026 — e nas Prateleiras dos Supermercados Cearenses
Nas grandes redes de supermercados do Ceará, o mel legítimo do semiárido é presença rara. A Néctar Floral é, hoje, praticamente a única empresa que mantém mel cearense genuíno nas gôndolas com regularidade. Eventualmente, alguma associação ou pequeno entreposto consegue colocar seus potes à venda — mas em quantidade mínima, quase excepcional.
O restante do espaço abriga, em boa parte, meis de outros estados — de grandes entrepostos do sul e sudeste do país. São produtos legítimos, de qualidade, com marcas bem construídas. Não há nada de errado com eles. Contudo, há uma lógica econômica que explica por que estão ali — e o mel semiárido não está.
Por que o Mel do Semiárido não Compete na Gôndola
O mel do semiárido cearense é um produto premium. Por suas características organolépticas únicas, pela flora nativa da caatinga e pela ausência natural de agrotóxicos, ele alcança entre R$ 15,00 e R$ 16,00 o quilo na compra direta ao apicultor.
É exatamente por isso que os grandes entrepostos exportadores o adquirem — porém para embarcar, não para vender internamente. Para abastecer o mercado brasileiro, esses mesmos entrepostos recorrem a meis de outras regiões, adquiridos a cerca de R$ 10,00 o quilo. Com esse custo menor, praticam preços competitivos nas gôndolas de todo o país — inclusive do Ceará.
O pequeno entreposto de uma associação do semiárido, por sua vez, pagou R$ 15,00 ou R$ 16,00 pelo mesmo quilo. Desse modo, não consegue competir na prateleira com quem pagou R$ 10,00. O resultado é visível: o mel que vem de longe ocupa o espaço. O mel semiárido da PECBRASIL, não.
O Paradoxo: o Mel que a Bélgica Compra, o Brasil Não Vê
Nenhum auditor da PECBRASIL enuncia esse paradoxo com clareza: o mel semiárido que não cabe na prateleira cearense é o mesmo mel que a Europa disputa. O mel de aroeira dos Inhamuns, com Indicação Geográfica reconhecida, praticamente não chega ao consumidor brasileiro.
Toda a produção segue, via sistema fairtrade, diretamente para as prateleiras da Bélgica. O europeu conhece, valoriza e paga por esse mel. O brasileiro, não — simplesmente porque ele não está à venda aqui. Confira também o que o IBRAM documentou sobre a legitimidade da CBA na defesa da apicultura brasileira.
O que Seria o Semiárido com o Mercado Interno Funcionando
Imagine o que o semiárido poderia ser com o mercado interno funcionando. Com a experiência acumulada de décadas pelos apicultores cearenses, com a flora da caatinga e com a aptidão natural para a apicultura orgânica, o Nordeste teria condições reais de se tornar o maior polo de mel orgânico do mundo.
Os méis das demais regiões do Brasil, por sua vez — hoje pressionados pela concorrência do preparado —, teriam espaço garantido no mercado industrial interno, substituindo de vez o xarope de açúcar nas linhas de produção de laticínios e biscoitos.
Todos ganhariam: o apicultor nordestino, o produtor do sul, a indústria — e o consumidor brasileiro, que finalmente comeria o mesmo mel que o americano e o europeu já comem: legítimo, orgânico por natureza, com sabor e valor real.
A rede de farmácias Pague Menos é um exemplo interessante. Com distribuição própria e presença capilar no varejo, ela consegue colocar mel cearense à venda onde outros canais não chegam — e vende bem. Mostra que o consumidor compra quando o produto está acessível e bem apresentado.
Além das gôndolas de mel puro, portanto, o restante do espaço é ocupado por iogurtes, biscoitos e bebidas que trazem a palavra “mel” no rótulo. O consumidor acredita, com razão, que está consumindo mel.
Na maioria esmagadora dos casos, não está.
O Brasileiro Consome Mel — Mas Não Sabe que É Xarope
Existe um argumento muito repetido no setor: “o brasileiro consome pouco mel, apenas 60 gramas per capita por ano.” Esse diagnóstico é, no mínimo, incompleto. Na verdade, o brasileiro consome muito iogurte de mel. Consome biscoito de mel. Consome bebidas com mel. O que ele não sabe, contudo, é o que está dentro da embalagem.
O Instituto de Tecnologia de Alimentos (ITAL) analisou 150 iogurtes comercializados por grandes marcas no Brasil. O resultado foi revelador: apenas 1 produto da amostra utilizava mel verdadeiro como ingrediente. Os outros 149, ou seja, a quase totalidade, utilizavam o chamado preparado de mel — um xarope industrial vendido em barricas de 25 kg para a indústria de laticínios e biscoitos.
O que é esse preparado? Os próprios laudos industriais declaram: a base é açúcar de cana e água. O mel verdadeiro representa cerca de 10% da composição. Além disso, corantes e aromas sintéticos completam a fórmula, simulando a cor castanho-escura e o odor característico do mel puro. Sem vitaminas, sem enzimas, sem polifenóis. Apenas energia de sacarose — e rótulo de mel.
Para a indústria, a lógica é simples: o preparado custa muito menos do que o mel legítimo. Para o apicultor, a consequência é direta: a indústria de alimentos, que deveria ser seu maior cliente interno, parou de comprar mel de verdade.
O Entreposto que Fechou e as 30 Toneladas que Sumiram
Essa destruição tem número e tem endereço. Um dos maiores entrepostos do Ceará — pertencente a um dos grandes conglomerados empresariais do estado — encerrou suas atividades justamente no período em que o preparado de mel avançou sobre o mercado industrial.
Esse entreposto entregava mensalmente cerca de 30 toneladas de mel puro para a indústria alimentícia do estado. Eram 30 toneladas que saíam do campo cearense, passavam pelo entreposto e chegavam às linhas de produção de iogurtes, biscoitos e bebidas. Hoje, porém, essas mesmas indústrias não compram mais um único quilo de mel legítimo do campo cearense.
O preparado conquistou 100% desse mercado. Como resultado, o entreposto fechou.
Nas gôndolas, o espaço que deveria ser do mel do semiárido foi ocupado por outras origens. Não porque o mel cearense seja pior — é o contrário. Mas porque seu custo de produção torna impossível a competição no varejo para quem não tem escala de exportação como contrapartida.
Macacão, Colmeia e Cera — O Assistencialismo que Não Resolve
O poder público conhece a apicultura cearense. Sabe que ela existe, que mobiliza famílias, que ocupa o semiárido, que gera divisas de exportação. Ainda assim, oferece o que sempre ofereceu: assistencialismo. Macacões. Colmeias. Cera. Rotas do mel com solenidade de lançamento.
Nenhum desses programas enfrentou a questão central: para quem o apicultor vai vender?
O apicultor sabe produzir. O SENAR o treinou. A associação o organizou. O sindicato o trouxe até a feira. Assim, ele chega à PECBRASIL, ouve a palestra, anota o que for anotável. E volta para casa sabendo o que já sabia: o mel que produz não tem mercado interno.
Não porque o brasileiro não quer mel. O brasileiro quer — e compra. Mas compra achando que é mel o que está no rótulo do iogurte.
Um Industrial do Agronegócio — Tratado como Feirante
Há algo que incomoda quem conhece o setor por dentro. O apicultor cearense produz um mel que é orgânico por natureza — sem agrotóxico, sem intervenção química, sem irrigação artificial. A flora nativa do semiárido, a vegetação da caatinga, produz um mel que o mercado europeu e americano disputa a preço premium.
Esse produtor é, tecnicamente, um industrial do agronegócio. Além disso, tem rastreabilidade, tem registro, tem produto com identidade geográfica reconhecível no mundo inteiro.
No entanto, na PECBRASIL 2026, ele está na banquinha da “feira dos municípios” — ao lado do artesanato, dos bordados, das especialidades regionais. Não porque não merece estar nos pavilhões principais. Mas porque o mercado interno que o sustentaria foi ocupado por um xarope de açúcar com 10% de mel e rótulo de produto natural.
O que Acontece Quando a Prateleira For do Mel Verdadeiro
A resposta não depende de novo programa governamental. Portanto, não precisa de nova rota do mel, nem de nova doação de colmeia. Precisa de uma coisa apenas: que o produto que está nas prateleiras seja o que o rótulo diz que é. Em suma, que o mel semiárido que chega à PECBRASIL como banquinha volte a ter lugar como produto industrial.
Se a indústria de laticínios e biscoitos passar a usar mel verdadeiro em vez do preparado, o fluxo muda por conta própria. Com isso, os entrepostos têm razão de existir novamente. O apicultor tem comprador. O preço se reestabelece. E a pergunta “seu mel é puro mesmo, tem açúcar?” — que resume décadas de confusão instalada no mercado — começa a perder sentido.
Na PECBRASIL de um futuro próximo, os apicultores não virão em caravana organizada pelo sindicato. Virão com stand próprio, financiado pelo próprio negócio. Não como beneficiários de assistência — mas como industriais do mel.
Mel Puro x Preparado de Mel: A Diferença que Não Aparece no Rótulo
| Característica | Mel puro de abelha | Preparado de mel (xarope industrial) |
|---|---|---|
| Composição principal | Néctar processado pelas abelhas | Açúcar de cana e água (~90%) |
| Teor de mel real | 100% | Aproximadamente 10% |
| Micronutrientes | Enzimas, vitaminas, polifenóis, minerais | Ausentes ou insignificantes |
| Cor e aroma | Naturais, variáveis conforme a flora | Simulados por corantes e aromas sintéticos |
| Cristalização | Natural — sinal de pureza e qualidade | Não apresenta cristalização natural típica |
| Regulamentação | IN nº 11/2000 MAPA + Decreto nº 9.013/2017 | Não atende aos padrões de identidade do mel |
| Impacto no apicultor | Gera renda justa e sustentável | Concorrência desleal — destrói o mercado interno |
Perguntas Frequentes
Por que o mel cearense não está nas prateleiras dos supermercados?
O mercado interno foi progressivamente ocupado pelo preparado de mel — um xarope industrial com cerca de 10% de mel e 90% de açúcar de cana, que chegou às indústrias de laticínios e biscoitos a preços artificialmente baixos. Com isso, os entrepostos que compravam mel legítimo do campo cearense perderam seus clientes industriais e foram encerrando atividades.
O que é o preparado de mel?
É um xarope industrial vendido em barricas de 25 kg para indústrias de alimentos. Sua composição declarada é majoritariamente açúcar de cana e água, com cerca de 10% de mel verdadeiro. Para simular cor e aroma do mel, os fabricantes adicionam corantes e aromas sintéticos. O produto não atende aos padrões de identidade do mel fixados pela IN nº 11/2000 do MAPA e pelo Decreto nº 9.013/2017 (RIISPOA).
O mel cristalizado é estragado?
Não. A cristalização é um processo natural que ocorre no mel puro em razão da alta concentração de glicose. É justamente um dos sinais de autenticidade do produto. Xaropes industriais adulterados com açúcar de cana não cristalizam da mesma forma. Mel cristalizado é mel de verdade.
Existe processo judicial sobre o preparado de mel?
Sim. O processo nº 0014457-97.2026.4.05.8100, em tramitação no Tribunal Regional Federal da 5ª Região, foi concluso para julgamento em 1º de junho de 2026. O IBRAM e a CBA sustentam que o cancelamento dos registros desses produtos tem efeito erga omnes nacional.
Por que o mel cearense é exportado em vez de vendido aqui?
Porque o mercado interno foi tomado pelo preparado de mel, e os compradores industriais locais pararam de adquirir mel verdadeiro. Sem mercado interno, o apicultor vende a atravessadores que repassam para exportadores — geralmente no Piauí — a preços muito abaixo do que o produto valeria. O mel orgânico do semiárido é valorizado na Europa e nos Estados Unidos, mas praticamente invisível nas gôndolas brasileiras.
Dados e Fontes — Tudo Verificável
| Dado | Fonte | Acesso |
|---|---|---|
| 150 iogurtes analisados, apenas 1 com mel verdadeiro | ITAL — Série Alimentos Industrializados 2030 | Acesso público |
| 35% do mel consumido internamente vai para a indústria | Efficienza (2023) — Agrolink | Acesso público |
| Consumo per capita: 60g/pessoa/ano | SNA — Sociedade Nacional de Agricultura | Acesso público |
| Processo judicial — concluso para julgamento | TRF5 — Processo nº 0014457-97.2026.4.05.8100 | Acesso público |
| Legislação de mel — padrões de identidade | MAPA — Decreto nº 9.013/2017 (RIISPOA) + IN nº 11/2000 | Acesso público |
| PECBRASIL 2026 — evento | FAEC — PECBRASIL 2026 | Acesso público |
Artigo produzido por Jeovam Lemos Cavalcante — Secretário da Câmara Temática do Mel do Ceará, membro titular da Câmara Setorial do Mel do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, apicultor em Ocará-CE, advogado da Confederação Brasileira de Apicultura — CBA, entidade máxima da apicultura nacional, e fundador do Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura — IBRAM Brasil.
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Data de Publicação: 25 de junho de 2026
Contexto: Publicado durante a PECBRASIL 2026 (25–27 de junho de 2026), no Centro de Eventos de Fortaleza.

