Sobre esta série O Seminário Internacional sobre Governança e Financiamento dos Serviços de Polinização, realizado nos dias 19 e 20 de agosto de 2026, reuniu especialistas, pesquisadores e representantes institucionais para discutir conservação dos polinizadores, biodiversidade, governança e mecanismos de financiamento relacionados aos serviços de polinização.
Jeovam Lemos Cavalcante, membro da Câmara Setorial do Mel e fundador doIBRAM, participou do seminário como ouvinte.
Esta série concentra-se na exposição de Anna Willingshofer, diretora de Ciência e Inovação da Tandem Global, que abordou a participação das empresas na conservação ambiental, cadeias de suprimentos, monitoramento e métricas ecológicas. Os textos não constituem transcrição oficial da palestra. As conexões estabelecidas com a Lei nº 14.119/2021, o Decreto nº 13.018/2026 e o projeto de PSA do IBRAM/GeoIBRAM constituem reflexões próprias do Instituto e não representam endosso formal dos organizadores.
Como estruturar o pagamento por polinização de forma contratável
As discussões apresentadas por Anna Willingshofer durante o seminário internacional ajudam a responder a uma pergunta central para o setor: como viabilizar o pagamento por polinização e transformar o benefício ambiental das abelhas em um contrato formal, seguro e auditável?
O apicultor não produz apenas mel
Ao instalar, manejar e multiplicar suas colônias, apicultores e meliponicultores mantêm milhões de polinizadores trabalhando ativamente no território. Esses insetos asseguram a fecundação das plantas nativas e garantem a circulação de variabilidade genética nos ecossistemas.
O mel possui um valor comercial de fácil percepção porque representa um produto físico na prateleira. Em contrapartida, o benefício ecológico gerado pelas abelhas cobre toda a paisagem ao redor, mas historicamente não gerava remuneração direta para quem mantém os apiários e meliponários.
A viabilidade do pagamento por polinização no setor privado
O Pagamento por Serviços Ambientais não depende apenas de programas governamentais ou verbas do orçamento público. Pelo contrário, a legislação brasileira incentiva contratos diretos entre grandes companhias e produtores rurais.
Nesse cenário, a estratégia do IBRAM e do GeoIBRAM foca na estruturação do mercado privado voluntário. Além de abrir novas fontes de receita, esse modelo reforça a convivência sustentável no campo e o alinhamento com normas operacionais, como as regras para aplicações agrícolas e proteção dos apiários.
Para receber, o produtor precisa comprovar
No entanto, nenhuma empresa financia iniciativas ambientais sem exigência de comprovação técnica. A estruturação do pagamento por polinização exige evidências claras sobre:
- Identificação formal do produtor rural e da empresa pagadora;
- Geolocalização exata dos apiários e raio de impacto ecológico;
- Quantidade e sanidade das colônias em atividade regular;
- Plano de trabalho com metas transparentes e critérios objetivos de repasse.
Portanto, a plataforma GeoIBRAM atua como a infraestrutura de dados que confere segurança jurídica e lastro técnico a essas operações.
O papel estratégico das associações e cooperativas
Dificilmente uma corporação conseguirá administrar milhares de contratos individuais dispersos pelo país. Consequentemente, entidades representativas — como cooperativas, associações e federações — assumem papel decisivo na organização dos produtores.
Essas entidades organizam a base no campo, conferem a documentação inicial, apoiam as rotinas de verificação e realizam a representação coletiva perante os compradores corporativos.
Monitoramento escalável em camadas
Para garantir confiabilidade sem gerar custos proibitivos, o monitoramento técnico deve ocorrer em etapas progressivas:
- Camada Básica: cadastro do produtor, geolocalização e cruzamento com a base do CAR.
- Camada de Rotina: registros fotográficos periódicos, declarações de manejo e relatórios de perdas ou repovoamento.
- Camada Avançada (conforme a escala): auditorias por amostragem, sensoriamento remoto e vistorias de campo.
Prova e representação: as bases do PSA
Em síntese, a consolidação desse mercado apoia-se em dois pilares fundamentais: prova técnica para atestar a continuidade dos serviços no campo e representação coletiva para alcançar escala comercial.
Assim, ao conectar as diretrizes da Lei nº 14.119/2021 à tecnologia do GeoIBRAM, o setor transforma uma atividade dispersa em um ativo ambiental organizado, seguro e apto para o pagamento por polinização.

