Você ainda vê vagalumes no quintal?

admin

O para-brisa ainda chega sujo de insetos?

Se a resposta for não — você já sabe que algo aconteceu. A pergunta é: desta vez, vamos deixar a Jataí, a Jandaíra e a Mandaçaia sumir no mesmo silêncio?

Uma geração atrás, viajar à noite era parar na estrada para limpar o para-brisa. Borboletas. Vagalumes. Insetos de todo tipo. Era incômodo. Era abundância.

No quintal, os pardais chegavam de manhã. As crianças corriam atrás de vagalumes ao entardecer. A natureza era barulhenta, presente, incontornável.

Hoje o para-brisa chega limpo ao destino. O quintal ficou em silêncio. Ninguém decretou. Ninguém assinou. O colapso aconteceu devagar — e cada geração aceitou o mundo que encontrou como se fosse o normal de sempre.

Esse é o colapso invisível: não aquele que chega com estrondo, mas o que avança em silêncio até que ninguém se lembre mais do que havia antes.

A Jataí, a Jandaíra e a Mandaçaia estão no mesmo caminho. Com uma diferença que muda tudo: desta vez existe um documento.

1 – 2017 — o sistema foi construído sem elas

O BEE-REX, protocolo de avaliação ecotoxicológica de agrotóxicos, foi criado com base em protocolos europeus e americanos — testando exclusivamente Apis mellifera. Jataí, Jandaíra e Mandaçaia nunca existiram para o regulador. São abelhas brasileiras invisíveis para uma burocracia construída com olhos no exterior.

2- 2022 — a correção chegou no papel

A INC 01/2022 incluiu espécies nativas na exigência de testes ecotoxicológicos. Foi um avanço real. Mas o mecanismo de equivalência técnica continuou aprovando produtos novos com dossiês antigos — anteriores a 2022, anteriores a 2017. A proteção existe na norma. No campo, nunca chegou.

3 – 2026 — 79 agrotóxicos. Zero testes. Confirmado por escrito.

- PROPAGANDA -
Ad imageAd image

Em resposta a pedido LAI do IBRAM, o IBAMA confirmou por despacho oficial: nenhum dos 79 agrotóxicos aprovados nos Atos nº 9 e nº 16 de 2026 passou por avaliação ecotoxicológica. Nem pelo BEE-REX incompleto de 2017. Nem por nada. O próprio IBAMA documentou a omissão.

Os vagalumes sumiram sem documento. Os pardais sumiram sem documento. O para-brisa ficou limpo sem que ninguém assinasse.

A Jataí, a Jandaíra e a Mandaçaia têm documento. O IBAMA assinou. O MAPA publicou no Diário Oficial. O processo é público: LAI nº 02303.008284/2026-41.

Desta vez, não há como dizer que não sabia.

🐝 Jataí – Sul e Sudeste

🐝Jandaíra – Nordeste / Semiárido

🐝Mandaçaia – Todo o Brasil

O Manifesto: O Colapso Documentado e a Amnésia Geracional

Esta não é apenas uma questão técnica; é um alerta de natureza civilizatória. Recentemente, durante um intervalo na Escola de Filosofia Nova Acrópole, um diálogo trouxe a peça que faltava para compreendermos a gravidade do nosso tempo.

Debatíamos a memória e a percepção da natureza quando surgiu o relato: há apenas uma geração, cruzar as estradas brasileiras exigia paradas frequentes para limpar o para-brisa; a abundância de vida era tamanha que se impunha fisicamente. Hoje, o para-brisa chega limpo. Ao ser questionado se este fenômeno era o resultado direto do uso descontrolado de agrotóxicos, a resposta técnica é afirmativa: o para-brisa limpo é o rastro visível de um deserto químico.

Mas a reflexão filosófica nos levou além. Discutíamos como civilizações inteiras, como a Asteca, desapareceram deixando mistérios que a arqueologia ainda tenta decifrar. O colapso sistêmico começa no invisível. Ele inicia na base da cadeia, com as abelhas, e sobe até silenciar os jardins. É nesse cenário que a pergunta de uma filha ao pai revela a amnésia de uma geração que já aceitou a perda:

“Pai, você ainda ouve os pardais de manhã?”

Se não ouvimos mais os pardais, é porque não há mais insetos para alimentá-los. Se não há insetos, é porque o bioma ruiu. Sem uma mudança de rumo, o desaparecimento da Jataí, da Jandaíra e da Mandaçaia será tratado pelo futuro como mais um desses mistérios inexplicáveis das civilizações extintas.

Como Presidente do IBRAM, afirmo: o colapso de hoje não é um mistério; é uma omissão documentada. O sistema regulatório foi construído para ignorar essa ausência, mas o dever do IBRAM é forçá-lo a enxergar. Cada cadastro no GeoIBRAM é um marco de resistência técnica. É o registro formal de que não aceitaremos que a história das nossas abelhas — e da nossa própria civilização — termine em um silêncio sem explicação. Jeovam Lemos Cavalcante

IBRAM Brasil · Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura · geoibram.com
Corrente da Legalidade · BEE-REX · INC 01/2022 · Portaria MAPA 298/2021 · LAI 02303.008284/2026-41

Compartilhar
Nenhum comentário