Brasil maior consumidor de agrotóxicos do mundo: o que diz o IBAMA
O Brasil é o maior consumidor de agrotóxicos do planeta. Segundo o relatório oficial do IBAMA, o país vendeu 907.564 toneladas de ingredientes ativos em 2024 — um aumento de mais de 20% em relação a 2023 e recorde na série histórica.
Portanto, o dado não é isolado. Na verdade, ele confirma uma tendência que vem acelerando ano após ano. E, por trás desse número, existe uma peça que quase ninguém está monitorando de perto: o drone agrícola.
Por que os drones agrícolas viraram parte do problema
O êxodo rural esvaziou o campo de mão de obra. Diante disso, o drone chegou como solução prática: um único operador cobre, em poucas horas, o que antes exigia dias de trabalho manual. Assim, a tecnologia democratizou o acesso à agricultura de precisão para o pequeno e o médio produtor — e isso, por si só, é positivo.
O problema, no entanto, é o descontrole que veio junto com essa democratização.
Atualmente, mais de 30 mil drones agrícolas têm registro na ANAC. Contudo, desse total, apenas pouco mais de 3 mil operadores possuem autorização efetiva para pulverizar, com curso técnico, responsável agrônomo e registro ambiental em dia. Ou seja, mais de 26 mil equipamentos pulverizam hoje sem o treinamento mínimo exigido por lei.
O paradoxo: operador sem treino usa mais agrotóxico, não menos
Ao contrário do que se poderia imaginar, um operador sem qualificação não reduz o uso de defensivos — pelo contrário, ele aumenta. Isso acontece por três motivos principais:
→ Primeiro, ele erra a calibração do equipamento; a praga sobrevive, e a lavoura precisa ser pulverizada de novo. → Além disso, ele costuma aumentar a dose “por garantia”, com medo de o baixo volume de calda não fazer efeito. → Por fim, ele pulveriza mesmo sob vento fora do padrão, o que joga o produto para fora do alvo e obriga uma nova aplicação.
O risco direto para as abelhas nativas
Some-se a isso um outro fator: essas pulverizações hoje chegam a pequenas e médias lavouras — café, hortifrúti, fruticultura — que ficam muito mais próximas de fragmentos de Mata Atlântica, Cerrado e Caatinga do que qualquer grande talhão de soja. Consequentemente, é justamente nessas bordas de mata que vivem as abelhas sem ferrão, os Meliponini, polinizadores nativos essenciais para toda a cadeia de produção de alimentos.
O que falta para reverter o quadro
Enquanto o Brasil segue como maior consumidor de agrotóxicos do mundo, a fiscalização sobre quem efetivamente pulveriza continua apenas no papel. Por isso, o país não precisa de mais um recorde de consumo — precisa, sim, de rastreabilidade real entre quem tem drone e quem tem autorização para operá-lo.
Afinal, os dados já existem: estão no IBAMA, na ANAC e no MAPA. Falta apenas juntá-los antes que o próximo boletim anual bata outro recorde.
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