- 1. O Cajueiro Precisa de uma Abelha que Ninguém Conhece
- 2. Os Números que a Agricultura Familiar Precisa Conhecer
- 3. O Drone Chegou de Mansinho — e a Abelha Não Tinha Para Onde Voar
- 4. O Receituário que Deveria Proteger — e Não Protege
- 5. O Ciclo que Ninguém Vê — e que Está Destruindo a Cajucultura Familiar
- 6. O que Você Pode Fazer — Mesmo Sem Criar Centris
- O IBRAM Vai Continuar Falando pelo que Não Tem Voz
Cajucultura | Meliponicultura | Segurança Alimentar | Corrente da Legalidade
A abelha que poliniza o cajueiro não produz mel, não tem meliponicultor que a defenda e não existe para o BEE-REX. O drone chegou de mansinho — e a castanha da agricultura familiar do Ceará, Rio Grande do Norte e Piauí está morrendo sem que ninguém perceba a conexão.
Jeovam Lemos Cavalcante Presidente do IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura. Advogado (OAB/CE 2.627 — OAB/DF 1.666). Membro da Câmara Setorial do Mel no MAPA. Secretário da Câmara Temática do Mel — FAEC/Senar-CE.
Rodrigo Diógenes Pinheiro – Engenheiro Agrônomo (UFC). Diretor Técnico do IBRAM. Consultor da FAO para segurança alimentar e cajucultura. Consultor internacional na África — maior região produtora de castanha de caju do mundo. Ex-consultor Sebrae-CE em cajucultura. Ex-presidente da FAEC/Senar-CE.
📅 Abril de 2026
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Imagine que você é cajucultor no sertão do Ceará — o maior produtor de caju do Brasil, seguido pelo Rio Grande do Norte e pelo Piauí. Agricultura familiar, terra da sua família há gerações. Você não usa drone, não usa agrotóxico pesado, cuida do cajueiro como se cuida de um filho. Mas a cada ano a produção cai um pouco. Menos castanha. Menos caju. Você culpa a seca, o calor, a falta de chuva. Não culpa a abelha — porque você nem sabe que ela está sumindo.
O IBRAM e o Eng. Rodrigo Diógenes Pinheiro — que conhece os cajueirais do Nordeste por dentro e os mercados da África como consultor da FAO — precisam contar essa história. Ela está acontecendo agora, em silêncio, nos cajueirais da agricultura familiar. E tem um culpado que quase ninguém conhece.
1. O Cajueiro Precisa de uma Abelha que Ninguém Conhece
O cajueiro não se poliniza sozinho. Ele precisa que o pólen de uma flor chegue até outra flor — e quem faz esse trabalho são as abelhas. Sem elas, o fruto não forma. Sem o fruto, não tem castanha. Sem castanha, não tem renda.
A abelha mais importante nesse trabalho não é a abelha de mel que todo apicultor conhece. É uma abelha nativa chamada Centris — a abelha-de-óleo. Pequena, solitária, sem ferrão. Não produz mel comercial. Não tem criador. Não tem associação que a defenda. Não tem norma que a proteja pelo nome.
🐝 Conheça a Centris — a verdadeira abelha do caju
Por que “abelha-de-óleo”? Ela não coleta só néctar e pólen. Ela coleta óleo das flores de certas plantas nativas — e usa esse óleo para alimentar suas larvas. Sem essas plantas oleaginosas perto do cajueiral e na mata nativa da reserva legal, ela some. Sem ela, o cajueiro perde seu polinizador mais eficiente.
Por que ela é essencial? Estudos financiados pelo próprio governo brasileiro (Funbio/MMA) confirmam que a Centris é uma das principais responsáveis pela polinização cruzada do cajueiro — aquela que garante a formação real da castanha.
O que ela tem a ver com o BEE-REX? Tudo. O BEE-REX — modelo norte-americano que avalia se um agrotóxico é seguro para abelhas — nunca testou a Centris. Nunca testou nenhuma abelha nativa brasileira. Usa apenas a abelha de mel europeia como referência. A Centris, para o sistema regulatório brasileiro, simplesmente não existe.
🔬 Rodrigo Diógenes Pinheiro — Diretor Técnico do IBRAM / Consultor FAO: a Centris necessita de plantas fornecedoras de óleo floral — como espécies da família Malpighiaceae — para estabelecer populações suficientes perto dos cajueirais. A mata nativa da reserva legal que cerca o cajueiral é o habitat dessas plantas. Quando o drone pulveriza sobre essa mata, elimina o recurso que a Centris precisa para se fixar. O cajuicultor não vê a conexão — e continua perdendo produção sem saber por quê.
2. Os Números que a Agricultura Familiar Precisa Conhecer
Esse dado vem de pesquisa financiada pelo Ministério do Meio Ambiente e pela Funbio:
40% a 90% É a queda na produção do cajueiro quando os polinizadores somem. O cajueiro fica de pé — mas quase não produz castanha.
Em 2019, os polinizadores foram responsáveis por mais de R$ 251 milhões do valor total da produção de castanha de caju no Brasil. Esse é o valor que a agricultura familiar nordestina deixaria de receber se as abelhas sumissem.
A cajucultura hoje é, na sua grande maioria, agricultura familiar. Os grandes produtores saíram do mercado. Quem ficou foi a família do sertão — que planta, colhe e depende do caju para sobreviver. E essa família está perdendo polinizador sem saber por quê.
🔬 Rodrigo Diógenes Pinheiro — Consultor FAO / África: a África — onde atuo como consultor para a FAO em segurança alimentar e cajuicultura — responde por mais de 50% da produção mundial de castanha de caju. Costa do Marfim e Tanzânia avançaram em produtividade justamente porque preservam a biodiversidade de polinizadores nativos próximos às lavouras. O Brasil, que foi o maior produtor histórico, perdeu posição no mercado mundial em parte porque ignora esse elo fundamental. Não é só uma questão ambiental — é uma questão de segurança alimentar e de competitividade da cajuicultura brasileira.
3. O Drone Chegou de Mansinho — e a Abelha Não Tinha Para Onde Voar
Nos últimos anos, os drones agrícolas multiplicaram no Nordeste. Rápidos, baratos, eficientes — e muitas vezes operados sem cadastro, sem notificação, sem respeito à lei e sem receituário agronômico adequado.
O problema é a deriva — documentada em série premiada pelo jornal O POVO no Ceará: o agrotóxico que o drone despeja não fica só onde foi mandado. O vento leva. A gotícula cai sobre o cajueiro, sobre as flores nativas, sobre a mata da reserva legal onde a Centris vive.
O que acontece quando a deriva atinge a Centris: ela não tem colmeia fechada onde se proteger. Aninha no solo e em ocos de madeira. Quando o agrotóxico atinge a mata nativa da reserva legal — onde estão as plantas oleaginosas que ela precisa — perde o habitat e o recurso alimentar de uma vez. Não tem meliponicultor que a recolha. Não tem apicultor que feche as caixas. Ela simplesmente não tem para onde voar.
Um caso julgado pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul condenou uma empresa agrícola a pagar mais de R$ 230 mil em danos após pulverização aérea matar centenas de abelhas por paralisia neurotransmissora. Se isso acontece com a abelha de mel — que tem dono, tem registro — imagine com a Centris, que não tem nada disso.
Quem tem obrigação de fazer o quê: a obrigação de notificar previamente os apicultores e meliponiculturistas em raio de 6 km é do produtor rural (IN 02/2008). O operador de drone tem apenas a obrigação de registrar suas atividades no SIPEAGRO perante o MAPA — não de avisar ninguém no campo diretamente. Na prática, a maioria dos produtores rurais desconhece essa obrigação. E a Centris — sem meliponicultor cadastrado — não é protegida por nenhuma dessas notificações.
4. O Receituário que Deveria Proteger — e Não Protege
A Lei 14.785/2023 — nova Lei dos Agrotóxicos determina que o receituário agronômico eletrônico deve conter obrigatoriamente as “precauções de uso e recomendações gerais relativas à saúde humana, a animais domésticos e à proteção ao meio ambiente” (Art. 22, § 5º, VIII).
Se o agrotóxico tivesse sido avaliado com abelhas nativas — como a Centris — antes de ser registrado, o receituário agronômico traria a restrição: não pulverize na época de floração das plantas oleaginosas nativas, não voe sobre a mata da reserva legal do cajueiral. O produtor rural e o operador de drone estariam munidos da informação correta para agir dentro da lei.
Sem essa avaliação — porque o BEE-REX nunca testou a Centris — o receituário fica cego para esse risco. O produtor contrata o drone sem saber que está destruindo o polinizador do seu próprio cajueiro.
🔬 Rodrigo Diógenes Pinheiro — Engenheiro Agrônomo / Diretor Técnico IBRAM: um receituário agronômico tecnicamente correto para uso próximo a cajueirais deveria indicar: a época de floração das espécies oleaginosas nativas da região; a distância mínima de aplicação em relação à mata da reserva legal; e restrições de aplicação em condições de vento que favoreçam deriva sobre fragmentos nativos. Nenhum desses critérios existe hoje nos receituários emitidos para produtos aprovados pelo BEE-REX — porque o BEE-REX não sabe que a Centris existe e não testou seu comportamento frente a nenhum agrotóxico registrado no Brasil.
5. O Ciclo que Ninguém Vê — e que Está Destruindo a Cajucultura Familiar
O BEE-REX aprova o agrotóxico sem testar a Centris →O receituário agronômico fica cego para o risco real →O produtor rural contrata o drone sem saber da obrigação de notificar e sem receituário que avise sobre época de floração →O drone chega de mansinho — sem aviso, na época errada, sobre a mata nativa da reserva legal →A deriva elimina as plantas oleaginosas que a Centris precisa para se fixar perto do cajueiral →A Centris abandona o território — sem registro, sem laudo, sem testemunha →A flor do cajueiro fica sem polinizador eficiente →A castanha não forma→O agricultor familiar perde a renda — e culpa a seca E ninguém conecta um ponto ao outro — porque o sistema foi construído com lacunas que ninguém preencheu. O BEE-REX não conhece o sertão. O receituário não avisa. O drone não precisa pedir licença à Centris. E a Centris não tem voz.
6. O que Você Pode Fazer — Mesmo Sem Criar Centris
A Centris não tem criador. Mas o meliponicultor e o apicultor podem fazer o que ninguém mais fará por ela: registrar o que está acontecendo no campo.
Cada drone que passa de mansinho sobre cajueiral sem notificar ninguém. Cada florada que passa sem a visita das abelhas que antes chegavam. Cada safra que cai sem explicação. Isso precisa ser registrado — com data, com localização, com foto se possível.
Esse registro no GeoIBRAM é a única evidência que o cajucultor familiar tem para mostrar ao Governo que algo está errado. Sem dado, não há investigação. Sem investigação, não há mudança. Sem mudança, o caju continua morrendo em silêncio.
🐝
A CASTANHA DE CAJU TAMBÉM É SUA CAUSA
Meliponicultor, apicultor, cajuicultor — vocês estão do mesmo barco. O inimigo é o drone sem cadastro, o veneno aprovado sem testar as abelhas certas e o modelo que não conhece o sertão.
Cadastre seu meliponário. Registre ocorrências de pulverização ilegal. Compartilhe com quem cria abelha e com quem planta caju — porque a luta é a mesma.
Cada elo da Corrente da Legalidade protege a Centris, o cajueiro e a renda da família que depende dos dois.📍 CADASTRE-SE NO GEOIBRAM
Gratuito · Georreferenciado · ibrambrasil.org.br/
O IBRAM Vai Continuar Falando pelo que Não Tem Voz
A Centris não tem meliponicultor. O cajueiro familiar não tem lobby. A deriva do drone não tem testemunha — a não ser quem estava no campo naquele dia e não sabia o que estava vendo.
O IBRAM irá formalizar requerimento via Lei de Acesso à Informação (LAI) para saber quantos dos 912 agrotóxicos aprovados em 2025 passaram pelo filtro do BEE-REX sem testar nenhuma abelha nativa. E continuará defendendo, junto à Câmara Setorial do Mel no MAPA, que o receituário agronômico só cumpre a Lei 14.785/2023 quando abelhas nativas como a Centris forem parte real do processo de avaliação de risco.
O Bee-REX não conhece o sertão.” Essa frase resume a tese jurídica e política: a importação de modelos regulatórios americanos sem adaptação à realidade das nossas abelhas nativas e dos nossos biomas (como o Cerrado e a Caatinga) é uma forma de negligência técnica.
A ferramenta está disponível. O elo que falta é o seu.
IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
Escritório de Representação Nacional: Setor Bancário Sul, Quadra 02, Edifício Empire Center, Brasília-DF, CEP 70070-904
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