O fungicida que não mata a abelha — ele mata o que a abelha precisa para viver

admin
fungicidas matam alimentacao das abelhas sem ferrao

O impacto de fungicidas em abelhas sem ferrão vai muito além da morte visível no campo. Uma pesquisa da Embrapa Meio Ambiente provou que fungicidas químicos destroem os fungos simbiontes essenciais para o desenvolvimento das larvas de Scaptotrigona depilis — e o sistema oficial de avaliação de risco simplesmente não enxerga esse mecanismo. Se você cria abelhas sem ferrão e há aplicação de fungicidas nas proximidades, registre sua colmeia no GeoIBRAM agora.

Quando falamos em agrotóxicos e abelhas, a imagem que vem à cabeça é a da abelha morta no campo — o inseto que caiu após o contato direto com o veneno. É essa a morte visível, a que aparece nas notícias.

Existe, porém, uma outra morte. Mais lenta. Que não deixa cadáver imediato. E que o sistema oficial de avaliação de riscos, até hoje, simplesmente não enxerga.

É sobre esse mecanismo invisível que trata a pesquisa recente da Embrapa — e é por isso que ela importa tanto para quem cria abelhas sem ferrão no Brasil.

O que a Embrapa descobriu sobre fungicidas em abelhas sem ferrão

Pesquisadores da Embrapa Meio Ambiente testaram dois fungicidas — um químico e outro biológico — sobre o alimento larval da Scaptotrigona depilis, conhecida popularmente como Canudo, uma das abelhas sem ferrão mais estudadas no Brasil.

O alimento larval das abelhas sem ferrão não é mel puro. É uma mistura de pólen e secreções glandulares das operárias — e dentro desse alimento vivem fungos específicos e fundamentais. São eles que ajudam a larva a digerir e absorver os nutrientes. Sem esses fungos, o alimento está presente, mas a larva não consegue aproveitá-lo.

Os dois fungos monitorados no estudo foram o Monascus ruber e o Zygosaccharomyces sp. — simbiontes que vivem em associação íntima com a abelha e participam diretamente do desenvolvimento larval.

O que são fungos simbiontes? Organismos que vivem em parceria com outro ser vivo, trocando benefícios. No caso das abelhas sem ferrão, esses fungos habitam o alimento larval e participam diretamente da digestão e do desenvolvimento das larvas. Sem eles, a criação não se completa.

O que aconteceu com cada fungicida — resultados do estudo

ProdutoO que o estudo observou
Fungicida biológico (doses baixas)Estimulou o crescimento dos fungos simbiontes. Doses de 0,2 g/L e 0,66 g/L aumentaram a formação de esporos em relação ao grupo controle.
Fungicida biológico (dose alta)Em concentração elevada, passou a prejudicar o crescimento fúngico. Mesmo produtos biológicos podem ter efeitos negativos quando usados em excesso.
Fungicida químico (≥ 2 g/L)Inibiu completamente a esporulação. Análises moleculares confirmaram: nenhum dos dois fungos simbiontes foi detectado. Eliminação total do complexo fúngico associado às larvas.
  • 100% de inibição fúngica com fungicida químico em doses de campo
  • 0 fungos simbiontes detectados nas três maiores doses do produto químico
  • Apresentado no 18º Simpósio de Controle Biológico — Embrapa Meio Ambiente, 2025

Além disso, as doses testadas basearam-se nas recomendações reais de aplicação em campo — não em concentrações artificialmente elevadas de laboratório. São as mesmas concentrações que chegam às plantações e, por deriva, chegam também às colmeias de abelhas sem ferrão.

Por que fungicidas em abelhas sem ferrão é um problema invisível

Se a abelha não morreu, por que se preocupar?

Porque a morte da colmeia pode acontecer semanas depois, sem que ninguém consiga identificar a causa. A abelha adulta que foi ao campo e voltou está viva — mas trouxe pólen contaminado. Esse pólen foi misturado ao alimento das larvas. As larvas receberam o alimento, porém sem os fungos necessários para se desenvolver. A criação vai minguando. A colmeia enfraquece. Quando o meliponicultor percebe, já é tarde.

Esse é o mecanismo que a Embrapa documentou: não se trata de toxicidade direta, mas de ruptura simbiótica. E essa ruptura não aparece nos testes que o governo exige hoje.

A limitação do sistema oficial de avaliação de risco

O pesquisador Cristiano Menezes, da Embrapa Meio Ambiente, afirma diretamente: os ensaios ecotoxicológicos precisam ser aprimorados para incluir as abelhas nativas. Atualmente, os testes realizam-se apenas com Apis mellifera — a abelha europeia, exótica no Brasil.

- PROPAGANDA -
Ad imageAd image

Ademais, os pesquisadores apontam que a obrigação de realizar testes em abelhas aplica-se hoje apenas aos inseticidas químicos. Para fungicidas — tanto químicos quanto biológicos — essa exigência ainda não existe na regulamentação brasileira.

Em outras palavras: um produto pode ser aprovado para uso agrícola no Brasil sem qualquer teste que avalie seu impacto sobre os microrganismos que sustentam a vida das abelhas sem ferrão. Legalmente, tudo conforme. Biologicamente, um risco real e documentado. É exatamente esse vácuo que o IBRAM denuncia na série BEE-REX sobre os 48 agrotóxicos aprovados sem teste.

Como a notificação prévia protege sua criação de abelhas sem ferrão

O primeiro instrumento legal disponível ao meliponicultor é o registro georeferenciado no GeoIBRAM. Esse cadastro documenta a presença de polinizadores na sua área e ativa o direito à notificação prévia de 48 horas antes de qualquer aplicação de defensivos agrícolas — incluindo fungicidas — nas proximidades da sua criação, conforme a IN MAPA 02/2008.

Portanto, registrar é o primeiro passo: sem cadastro, a colmeia não existe juridicamente. Sem existência jurídica, não há direito a notificação. Sem notificação, o fungicida chega sem aviso — e a ruptura simbiótica começa silenciosamente nas suas abelhas sem ferrão.

Cadastre seu meliponário no GeoIBRAM agora →

Quem não registra, não prova.


Fonte científica: Prado, S. et al. Efeitos de Fungicidas no Complexo Fúngico do Alimento Larval de Scaptotrigona depilis. 18º Simpósio de Controle Biológico, 2025. Autores: Simone Prado, Jenifer Dias Ramos, Adalgisa Thayne Ramos, Ana Carolina Queiroz, Mário Ortolan Alves, Artur Castagna, Guilherme Campanha e Cristiano Menezes. Embrapa Meio Ambiente, Jaguariúna/SP.

Compartilhar
Nenhum comentário