Agrotóxicos Matam Abelhas Nativas: o IBAMA Sabia Desde 2019

admin

Denúncia · GeoIBRAM · Abril 2026

Em 2019, técnicos do próprio Instituto Brasileiro do Meio Ambiente escreveram 298 páginas reconhecendo que os testes usados para aprovar agrotóxicos não protegem as abelhas nativas do Brasil. O documento ficou guardado. Em 2026, o Ministério da Agricultura aprovou mais venenos da mesma família — pelo atalho que dispensa qualquer avaliação. O GeoIBRAM leu o documento. E vai contar o que está escrito.

GeoIBRAM·IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura·Abril de 2026

1- 298 Páginas que Ninguém Leu

Em outubro de 2019, técnicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente — o IBAMA — concluíram um trabalho de anos. Estudaram um tipo de agrotóxico chamado imidacloprido, que é usado em algodão, café, cana, milho e soja. E escreveram um documento de 298 páginas.

Esse documento tem um nome técnico: Parecer Técnico nº SEI IBAMA 6220406. Mas o que ele diz é simples de entender.

Ele diz que o Brasil não consegue garantir que esse tipo de agrotóxico é seguro para as abelhas nativas. Não porque o produto seja necessariamente letal. Mas porque os testes usados para aprovar esse veneno foram feitos com a abelha europeia — a Apis mellifera — e não com as abelhas do Brasil.

Quer dizer: o governo estava avaliando o risco para o campo brasileiro usando dados de uma abelha que não é daqui. E os próprios técnicos do IBAMA reconheceram isso por escrito.

O que os técnicos do IBAMA escreveram em 2019

“O escopo e validade das conclusões de risco apresentadas neste parecer são delimitados por incertezas relacionadas à aplicação da avaliação de risco conduzida com dados da abelha exótica Apis mellifera para abelhas nativas.”

Parecer Técnico nº SEI IBAMA 6220406 — Outubro de 2019 — DIQUA/CGASQ/CCONP — IBAMA

Traduzindo para o campo: os técnicos disseram que os resultados do estudo têm limites. Que usar dados da abelha europeia para decidir se um veneno é seguro para a Jandaíra do sertão, para a Uruçu do Nordeste ou para a Mandaguari do Cerrado é uma incerteza que eles não conseguem resolver com os dados que têm.

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Eles pediram mais estudos. Recomendaram que o processo de reavaliação continuasse. E assinaram o documento.

O documento ficou. Os estudos adicionais não vieram. E os venenos continuaram sendo aprovados.


2 – Uma Família de Venenos Perigosa para Abelhas

O imidacloprido que o IBAMA avaliou em 2019 faz parte de uma família de agrotóxicos chamada neonicotinóides. O nome é difícil, mas o conceito é simples: são venenos que agem no sistema nervoso dos insetos. Matam pragas. Mas também matam abelhas.

Esses venenos são sistêmicos — quer dizer, quando aplicados na planta, eles se distribuem por todos os tecidos, incluindo o pólen e o néctar. A abelha vai buscar alimento e leva o veneno para dentro da colmeia.

Na Europa, vários neonicotinóides foram proibidos exatamente por isso. A União Europeia suspendeu o imidacloprido para uso em campo aberto em 2018, após evidências de que estava destruindo populações de abelhas.

No Brasil, o IBAMA avaliou. Reconheceu as incertezas. Recomendou cautela. E o sistema de equivalência técnica continuou aprovando produtos da mesma família — sem nenhum dos testes que os técnicos pediram.

O que é a equivalência técnica — em linguagem simples

Imagine que um produto antigo foi aprovado há 20 anos, quando não existia nenhuma regra para proteger abelhas. Hoje, uma empresa quer registrar um produto novo da mesma família. Em vez de fazer testes novos, ela diz: “o meu produto é igual ao antigo.” O governo compara as fórmulas químicas. Se bater, o registro é dado. Sem nenhum teste novo. Sem verificar se aquele veneno mata a abelha que poliniza o seu cajueiro ou a sua soja. É isso que a equivalência técnica permite. E foi assim que 79 agrotóxicos foram aprovados em 45 dias em 2026.


3 – 2026: Aprovado Mesmo Assim

Sete anos após o alerta dos técnicos do IBAMA, o Ministério da Agricultura publicou no Diário Oficial da União, em 18 de fevereiro de 2026, o Ato nº 9. Entre os 31 agrotóxicos aprovados naquele dia, estava este:

Ato nº 9, Item 21 — DOU 18/02/2026 — Edição 32 — Seção 1 — Página 140

Classe II — Muito Perigoso ao Meio Ambiente

ACETAMIPRID TÉCNICO YANGNONG

Empresa requerente: Biorisk Assessoria e Comércio de Produtos Agrícolas Ltda. — São Paulo/SP.
Fabricante: Ningxia Ruitai Technology Co., Ltd. — Ningxia, China.
Ingrediente ativo: Acetamiprido — neonicotinóide, da mesma família do imidacloprido avaliado pelo IBAMA em 2019.
Processo: nº 21000.050595/2021-57, protocolado em 30/06/2021.
Forma de aprovação: equivalência técnica — sem avaliação ambiental nova, sem testes para abelhas nativas, sem responder às incertezas documentadas pelo IBAMA em 2019.

O acetamiprido é primo do imidacloprido. Mesma família. Mesmo modo de ação no sistema nervoso dos insetos. Mesma preocupação para as abelhas.

Em 2019, os técnicos do IBAMA disseram que não podiam garantir a segurança do imidacloprido para as abelhas nativas. Em 2026, o sistema aprovou o acetamiprido — da mesma família — sem responder nenhuma daquelas perguntas que ficaram sem resposta.

O alerta de 298 páginas não mudou nada para esse produto. Porque a equivalência técnica não precisa responder alertas. Ela só precisa comparar fórmulas.

Também o IBAMA reconheceu — sobre abelhas nativas e neonicotinóides

“A utilização de parâmetros de toxicidade de abelhas Apis para nativas necessita de confirmações científicas.”

Parecer Técnico nº SEI IBAMA 6220406 — Pág. 75 — Outubro de 2019


4- Por que Isso Acontece: uma Decisão Política, Não Técnica

É preciso ser honesto sobre o que está acontecendo aqui.

Os técnicos do IBAMA não são os vilões dessa história. Eles fizeram o trabalho deles. Estudaram. Escreveram. Alertaram. O problema é que o alerta deles não tem poder de parar um registro. Eles podem recomendar. Mas a decisão final — registrar ou não registrar um agrotóxico — é tomada em outra esfera.

E nessa esfera, o que pesa não é o alerta técnico de 298 páginas. O que pesa é a pressão econômica de um setor que movimenta bilhões e que tem interesse em que o atalho da equivalência técnica continue funcionando como está.

O resultado é esse que estamos vendo: 79 agrotóxicos aprovados em 45 dias, a maioria fabricada na China e na Índia, sem nenhum teste para as abelhas do Brasil. Enquanto o apicultor do sertão cearense, o meliponicultor do Cerrado e o produtor de maçã do Sul assistem às suas colmeias morrerem sem saber por quê.

O que a ciência já sabe — e o sistema ignora

Pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos, da UNESP e da UNICAMP publicaram estudos comparando a sensibilidade de abelhas nativas e da Apis mellifera aos agrotóxicos. O resultado: em 72% dos ensaios realizados, as abelhas nativas brasileiras — Uruçu, Jataí e Mandaguari — foram mais sensíveis ao veneno do que a abelha europeia.

Ou seja: o modelo usado para aprovar agrotóxicos no Brasil subestima o risco para as nossas abelhas. E mesmo depois de saber disso, o sistema continua aprovando produtos sem corrigir essa falha.

Fonte: Pesquisa UFSCar/UNESP/UNICAMP — Publicada no periódico Environmental Pollution


5- O que Está em Jogo para o Campo Brasileiro

Isso não é um debate acadêmico. É uma questão de sobrevivência para quem vive do campo.

No Nordeste, as abelhas do gênero Centris e a Jandaíra são responsáveis pela polinização do caju. Sem elas, a produção cai. Não existe máquina que substitua esse trabalho.

No Centro-Oeste, a Mandaguari visita as flores da soja e contribui com até 11% da produtividade. Nenhum insumo compra de volta esse serviço quando a abelha morre.

No Sul, a Jataí é fundamental para a maçã e a uva. No Sudeste, a Uruçu frequenta os cafezais. Na Amazônia, as abelhas nativas polinizam o açaí e a castanha-do-Pará.

Cada aprovação feita no escuro — sem teste, sem transparência, sem respeitar o que o próprio governo já documentou — é um risco direto a tudo isso.

E o produtor rural que usa agrotóxicos também precisa saber disso. Porque matar as abelhas que polinizam a sua própria lavoura não é só um problema ambiental. É um prejuízo econômico que ele mesmo vai pagar na hora da colheita.

Para o produtor rural que usa agrotóxico

O IBRAM não é contra a agricultura. É contra a aprovação de produtos sem avaliação adequada de risco. Um sistema que aprova venenos sem saber o efeito deles nas abelhas é um sistema que coloca em risco a polinização das suas próprias lavouras. Não existe produtividade sem polinizador. Não existe polinizador sem abelha. E não existe abelha saudável quando os venenos são aprovados sem as respostas que os próprios técnicos do governo pediram em 2019.


6- O que Precisa Mudar — Agora

O problema não é a ciência. Os técnicos do IBAMA fizeram o trabalho deles. O problema é que a ciência não está chegando até a decisão.

Existem três mudanças simples que resolveriam parte disso imediatamente:

Primeira: Todo ato de aprovação publicado no Diário Oficial deve informar qual é o produto antigo que serviu de base para a equivalência, e quando esse produto foi originalmente registrado. Hoje isso não é informado. Ninguém sabe se o produto novo está se comparando com um produto de 1990 ou de 2020. Essa informação existe. Só não é publicada.

Segunda: Se um produto foi aprovado antes de 2017 — quando não existia nenhuma regra para proteger abelhas — ele não pode servir de referência para um produto novo em 2026 sem que essa lacuna seja avaliada. Usar um registro antigo como âncora é transferir a cegueira do passado para o presente.

Terceira: Produtos classificados como Muito Perigosos ou Altamente Perigosos ao Meio Ambiente não podem entrar pelo atalho. Se o risco é máximo, a avaliação tem que ser máxima também — não mínima.

O GeoIBRAM Leu o que Ficou Guardado

Este artigo foi escrito por um apicultor que também é advogado. Que leu o Parecer Técnico nº SEI IBAMA 6220406 de 2019. Que cruzou com o Ato nº 9 publicado no Diário Oficial em fevereiro de 2026. Que identificou o acetamiprido — neonicotinóide, da mesma família que preocupava o IBAMA sete anos antes — aprovado pelo atalho que dispensa qualquer resposta científica.

Isso não é fácil de encontrar. O parecer tem 298 páginas. O ato do DOU é uma lista técnica que ninguém lê. O processo administrativo está num sistema judicial que poucos conseguem acessar.

O GeoIBRAM existe para fazer essa ponte. Para pegar o que está nos documentos oficiais — assinado, numerado, arquivado — e entregar em linguagem que o apicultor do sertão, o meliponicultor do Cerrado e o produtor rural do Sul possam entender e usar.

Porque a informação que fica guardada não protege ninguém. E a abelha que morre por causa de um veneno aprovado sem teste não volta.

GeoIBRAM — Levar a luz para quem está no escuro.

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