Por: Jeovam Lemos Cavalcante — Apicultor, Presidente do IBRAM (Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura), idealizador da plataforma GeoIBRAM que vai inserir os ativos ambientais no mercado, Membro da Câmara Setorial do Mel do Ministério da Agricultura (MAPA), Advogado da CBA (Confederação Brasileira de Apicultura), titular do escritório Carvalho & Cavalcante Advogados, ex-Promotor de Justiça e com mais de 50 anos de atuação na advocacia
O colapso das abelhas nos EUA é um alerta — e o Brasil já tem a ferramenta para não repetir o erro
O colapso das abelhas nos Estados Unidos deixou de ser um risco distante e virou uma crise concreta. Segundo estimativas dos Inspetores de Apiários da América, os apicultores comerciais do país perderam mais da metade de suas colônias até abril de 2026 — o pior declínio anual já registrado desde que esse tipo de levantamento começou. Para o Brasil, esse número não é só uma notícia estrangeira. É um alerta sobre o que pode acontecer aqui se o setor não seguir monitorando o que já está sendo construído.

A escala da crise nos Estados Unidos
O caso de Roy Funkhouser ilustra bem o tamanho do problema. Apicultor comercial experiente, ele deveria estar cuidando de cerca de 1.200 colmeias. Hoje, tem menos de 200. Segundo ele, os desafios atuais — parasitas, vírus e exposição a agrotóxicos — são muito mais difíceis de enfrentar do que no passado (fonte: O Cafezinho).
O quadro já vinha se agravando havia tempo. Uma pesquisa da organização Project Apis m., com dados de 702 apicultores responsáveis por cerca de 1,84 milhão de colônias, já apontava perda média de 62% durante o inverno de 2025 — a maior da história do país até então. As perdas diretas, só de reposição de colônias, ultrapassaram US$ 224 milhões (fonte: Rota Verde).
Para piorar, o momento da crise coincidiu com cortes no orçamento de pesquisa. O Congresso americano reduziu o financiamento agrícola em mais de US$ 32 milhões, o que levou o USDA a fechar um centro de pesquisa dedicado à saúde das abelhas. Além disso, o próprio USDA suspendeu a coleta de dados do relatório anual sobre colônias — um instrumento criado em 2015 e usado havia mais de uma década para acompanhar perdas e tendências no setor (fonte: Plataforma Media). Ou seja: bem no momento em que mais precisavam de dados, os EUA decidiram parar de coletá-los.
Por que as colônias estão colapsando?
O fenômeno não é novo. Em 2006, apicultores americanos começaram a relatar algo estranho: colônias fortes perdendo população de operárias rapidamente, sem causa aparente. Em 2007, pesquisadores batizaram o problema de Desordem do Colapso das Colônias, ou CCD (sigla em inglês para Colony Collapse Disorder). Quase vinte anos depois, a causa exata ainda não foi definida — acredita-se que seja uma combinação de fatores que compromete o sistema imunológico das abelhas.
Hoje, os principais suspeitos são conhecidos. O ácaro Varroa destructor, descrito pelo próprio USDA como a praga mais grave enfrentada pelas abelhas, se alimenta dos insetos e espalha um vírus que deforma suas asas. Some-se a isso a exposição a agrotóxicos, a perda de forragem — ou seja, menos flores disponíveis para as abelhas se alimentarem — e infestações do microsporídio Nosema ceranae. Juntos, esses fatores formam uma tempestade perfeita.
O Brasil está livre desse risco?
Não completamente — mas o cenário brasileiro é diferente em um ponto importante. Como já mostramos em outro artigo deste blog, a abelha africanizada — resultado do cruzamento entre linhagens europeias e africanas depois do Incidente de Rio Claro, em 1957 — desenvolveu comportamento higiênico natural. Ela detecta e remove larvas doentes sozinha, o que reduz sua vulnerabilidade a doenças como as que agravam o CCD nos EUA.
Isso não significa imunidade. Pesquisadores da Embrapa já registraram perdas de colônias em diversos estados brasileiros, como São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Minas Gerais. Segundo a instituição, essas perdas no Brasil costumam estar ligadas à seca, ao desmatamento e ao uso indiscriminado de agrotóxicos — fatores de risco que também aparecem na crise americana, ainda que a origem exata do problema seja diferente em cada país (fonte: Embrapa).

A ferramenta que os EUA estão perdendo — e que o Brasil já tem
O detalhe mais importante da crise americana não é só o número de colônias perdidas. É o fato de o país estar desmontando justamente o sistema que permitiria enxergar o problema chegando. Sem o relatório anual e sem o centro de pesquisa, os EUA caminham às cegas justamente no momento em que mais precisariam de dados.
O Brasil está construindo o caminho oposto. Já em 2020, pesquisadores da USP lançaram o BeeAlert, um aplicativo pioneiro de georreferenciamento para documentar mortes e envenenamento de abelhas por agrotóxicos, dando dimensão real ao problema em todo o território nacional (fonte: USP). O GeoIBRAM segue essa mesma lógica, mas de forma mais ampla: permite ao apicultor cadastrar a localização exata do seu apiário, cruzar essa informação com áreas de pulverização próximas e receber alertas antes que o dano aconteça — não depois.
Essa diferença é decisiva. Um sistema de monitoramento ativo transforma o apicultor de vítima passiva em agente que antecipa riscos. Além disso, o cadastro geolocalizado no GeoIBRAM abre caminho para que a propriedade participe de programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), transformando a preservação do ambiente ao redor do apiário em fonte de renda — e não apenas em custo.
O que o apicultor brasileiro pode fazer agora
- Cadastre seu apiário no GeoIBRAM: a geolocalização é o primeiro passo para qualquer sistema de alerta funcionar.
- Monitore o Varroa mesmo com a abelha africanizada: a resistência natural reduz o risco, mas não elimina a necessidade de inspeção periódica das colônias.
- Documente qualquer suspeita de contaminação por agrotóxico: fotos, data, horário e localização são essenciais para comprovar dano ambiental.
- Verifique a regularidade da propriedade no IBRAMRadar: isso também é o que abre a porta para o PSA.
Perguntas frequentes sobre o colapso das abelhas
O que é a Desordem do Colapso das Colônias (CCD)?
É um fenômeno identificado nos EUA em 2006, em que colônias fortes perdem grande parte de suas operárias rapidamente, sem uma causa isolada e evidente. A origem exata ainda não foi definida pela ciência.
O Brasil corre risco de um colapso como o dos EUA?
O risco existe, mas é menor. A abelha africanizada tem comportamento higiênico que reduz sua vulnerabilidade a doenças. Ainda assim, seca, desmatamento e agrotóxicos seguem causando perdas de colônias em vários estados brasileiros.
Como o GeoIBRAM ajuda a evitar perdas de colônias?
Ele permite geolocalizar o apiário, cruzar essa informação com áreas de pulverização e antecipar riscos antes que o dano aconteça — em vez de apenas contabilizar o prejuízo depois.
Um alerta que não pode ser ignorado
O colapso das abelhas nos Estados Unidos mostra o que acontece quando um país deixa de monitorar de perto a saúde de seus polinizadores. O Brasil ainda tem a chance de fazer diferente. A ferramenta já existe. Falta apenas que cada apicultor e meliponicultor a use. Cadastre seu apiário, acompanhe os alertas e ajude a construir um sistema de prevenção que os EUA, hoje, estão desmontando.
IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
CNPJ: 54.774.141/0001-90
Endereço da Representação: SBS Quadra 02, Bloco S, Edifício Empire Center, Brasília/DF
E-mail institucional: contato@geoibram.com
Telefone de contato: (61) 99850-2424

