Pulverização Clandestina:o Veneno que Voa Sem Controle

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Pulverização Clandestina: o Veneno que Voa Sem Controle | IBRAM Brasil


IBRAM BRASIL  ·  GEOIBRAM  ·  MARÇO DE 2026

Série especial  /  Artigo 1 de 2  ·  Deriva de Agrotóxico no Campo Brasileiro

Pulverização Clandestina:
o Veneno que Voa Sem Controle

A deriva de agrotóxico mata abelhas, contamina roças e adoece famílias — e quase ninguém fala sobre isso.

Jeovam Lemos Cavalcante  ·  OAB/CE 2627 – OAB/DF 1666a  ·  Presidente do IBRAM Brasil  ·  Março de 2026

Artigo 1 de 2

O Veneno que Voa Não Escolhe Destino

Drones e aviões agrícolas pulverizam agrotóxico fora da lei todos os dias no Brasil. Descubra quem são as vítimas, o que diz a lei e por que ninguém é responsabilizado.

Um problema que você já conhece, mesmo sem saber o nome

Você é do campo. Talvez da encosta das serras gaúchas ou catarinenses, onde uva e maçã precisam de abelha para dar fruto. Talvez do Cerrado goiano, onde o pequi floresceu por séculos antes de o drone aparecer. Talvez da Caatinga cearense ou pernambucana, onde a jandaíra e a mandaçaia habitam mandacarus há milênios. Talvez da Amazônia, onde o rio e a floresta ainda sustentam famílias inteiras — por enquanto.

Independente de onde você mora, há uma coisa que você provavelmente já viu, cheirou ou sentiu: o odor forte de agrotóxico vindo da fazenda vizinha. As abelhas que pararam de voltar. A dor de cabeça que aparece toda época de safra. Os peixes mortos no igarapé, no córrego, no açude.

Isso tem nome: chama-se deriva. É o produto químico que escapa da área tratada e vai onde o vento leva. O vento não lê cerca, não respeita limite de propriedade, não para na beira da aldeia indígena.

Aviões agrícolas modernos pulverizam mais de 200 hectares por hora. Drones chegam a cantos antes inacessíveis. Quando usado com responsabilidade por profissionais treinados, o defensivo agrícola cumpre uma função legítima no manejo da lavoura. Mas nas mãos de quem não tem treinamento, não conhece a norma e não respeita o entorno, o mesmo produto vira veneno — carregado pelo vento, sem aviso, sem controle, sem responsabilidade.

Na rede mundial de computadores, é comum ver operadores de drone exibindo voos como entretenimento. Mas um drone carregado de veneno é uma arma poderosa de destruição quando pilotado por pessoas sem treinamento e sem educação suficiente para compreender o que estão jogando no ar — e sobre quem. Como responsabilizar alguém, num país de dimensões continentais, sem fiscalização, sem registro?

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Agrava o quadro: cerca de 30% dos produtos que circulam no campo brasileiro chegaram sem passar por análise completa no sistema federal de registro. Muitos são proibidos na Europa e nos Estados Unidos — os mesmos países que os fabricam. Aqui, entram. Aqui, são usados. Aqui, voam.

Quem paga essa conta?

Primeiro, as abelhas — os animais mais sensíveis à contaminação química que existem. Uma única exposição à deriva pode eliminar uma colmeia inteira em poucos dias. Para o apicultor, isso não é só tristeza: é prejuízo real e muitas vezes irreparável. Uma colmeia leva anos para ser construída. O mel pode ser a principal — às vezes a única — renda da família.

Mas não param nas abelhas. Os meliponicultores do Nordeste criam jandaíra, mandaçaia e tiúba — abelhas nativas sem ferrão que não existem em nenhum outro lugar do planeta e não têm substituta. Agricultores familiares de Minas e do Paraná perdem polinização e, com ela, a safra. Quilombolas e povos indígenas relatam, há anos, doenças de pele, problemas respiratórios e morte de peixe nas épocas de safra — sem laboratório, sem advogado, sem como provar.

Essas são as pessoas que menos causaram o problema e que mais pagam por ele. Isso tem nome: injustiça ambiental.

A lei existe — e manda respeitar distâncias

📜  IN MAPA Nº 02/2008 — Art. 10 — Distâncias Mínimas Obrigatórias A norma que regula a aviação agrícola no Brasil é explícita: é proibida a aplicação aérea de agrotóxicos a menos de 500 metros de povoações, cidades, vilas, bairros e mananciais de captação de água, e a menos de 250 metros de mananciais, moradias rurais isoladas e agrupamentos de animais. As aeronaves agrícolas ficam ainda proibidas de sobrevoar áreas povoadas ou moradias enquanto transportam produtos químicos.

A mesma norma exige operadores certificados, condições climáticas adequadas, equipamentos aprovados pelo MAPA e descarte correto de resíduos. Não é recomendação — é obrigação legal.

Na prática, o descumprimento é rotineiro. A fiscalização é insuficiente num país continental. O apicultor não é avisado. A comunidade não é consultada. A família da roça vizinha não sabe de nada — até o dia em que as colmeias silenciam.

Não é má vontade de um ou outro fazendeiro. É um sistema inteiro que funciona sem controle, sem registro, sem responsabilidade. Enquanto isso não mudar, quem paga a conta são sempre os mesmos: os mais vulneráveis, os de menos voz, os que vivem da terra e dependem dela para sobreviver.

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Apicultores, meliponicultores e associações: cadastrem-se gratuitamente em ibrambrasil.org.br/ e façam parte da maior rede de proteção da cadeia apícola do Brasil. Cada apiário registrado no mapa torna possível o aviso obrigatório de 48 horas — e torna rastreável o descumprimento da lei. Cada associação cadastrada fortalece a rede contra o veneno que voa sem controle. Juntos, formamos o escudo que a lei prevê mas o Estado ainda não garante.Cadastrar gratuitamente — ibrambrasil.org.br/✓ 100% gratuito  ·  Apicultores, meliponicultores e associações  ·  Todo o Brasil

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