Pulverização Clandestina: o Veneno que Voa Sem Controle

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Série especial · Artigo 1 de 2 · Deriva de Agrotóxico no Campo Brasileiro

Autor: Jeovam Lemos Cavalcante — OAB/CE 2.627 | OAB/DF 1.666-A | Presidente do IBRAM Brasil | Março de 2026

Um Problema que Você Já Conhece, Mesmo Sem Saber o Nome

Você é do campo. Talvez da encosta das serras gaúchas ou catarinenses, onde uva e maçã precisam de abelha para dar fruto. Quem sabe do Cerrado goiano, onde o pequi floresceu por séculos antes de o drone aparecer. Ou da Caatinga cearense ou pernambucana, onde a jandaíra e a mandaçaia habitam mandacarus há milênios.

Pois independente de onde você mora, você provavelmente já viu, cheirou ou sentiu: o odor forte de agrotóxico vindo da fazenda vizinha. As abelhas pararam de voltar. Além disso, a dor de cabeça aparece toda época de safra. Os peixes também morrem no igarapé, no córrego, no açude.

Isso tem nome: chama-se deriva. O produto químico escapa da área tratada e vai onde o vento leva. Ora, o vento não lê cerca, não respeita limite de propriedade, não para na beira da aldeia indígena.

Quando o Defensivo Vira Veneno

De fato, aviões agrícolas modernos pulverizam mais de 200 hectares por hora. Drones chegam a cantos antes inacessíveis. O profissional treinado, ao usar o defensivo com responsabilidade, cumpre uma função legítima no manejo da lavoura. Contudo, nas mãos de quem não tem treinamento, não conhece a norma e não respeita o entorno, o mesmo produto vira veneno. O vento o carrega sem aviso, sem controle, sem responsabilidade.

Na rede, é comum ver operadores de drone exibindo voos como entretenimento. Porém, um drone carregado de agrotóxico é uma arma poderosa quando alguém sem treinamento o pilota — sem compreender o que joga no ar e sobre quem.

Além disso, cerca de 30% dos produtos que circulam no campo brasileiro chegaram sem passar por análise completa no sistema federal de registro. Muitos têm venda proibida na Europa e nos Estados Unidos — os mesmos países que os fabricam. No Brasil, entram. O mercado os usa sem restrição. E voam sobre nossas lavouras.

Quem Paga Essa Conta?

Sobretudo, as abelhas são os animais mais sensíveis à contaminação química. Uma única exposição à deriva pode eliminar uma colmeia inteira em poucos dias. Para o apicultor, portanto, isso não é só tristeza: é prejuízo real e muitas vezes irreparável. Construir uma colmeia leva anos. O mel pode ser a principal — às vezes a única — renda da família.

Além das abelhas, os meliponicultores do Nordeste criam jandaíra, mandaçaia e tiúba — abelhas nativas sem ferrão que não existem em nenhum outro lugar do planeta. Agricultores familiares de Minas e do Paraná perdem polinização e, com ela, a safra. Quilombolas e povos indígenas relatam doenças de pele, problemas respiratórios e morte de peixe nas épocas de safra — sem como provar.

Portanto, essas são as pessoas que menos causaram o problema e que mais pagam por ele. Isso tem nome: injustiça ambiental.

A Lei Existe — e Manda Respeitar Distâncias

Essa norma — a IN MAPA nº 02/2008 — é explícita: o operador não pode aplicar agrotóxico por via aérea a menos de 500 metros de povoações, cidades, vilas e mananciais de captação de água, nem a menos de 250 metros de moradias rurais isoladas e agrupamentos de animais. O texto legal também exige operadores certificados, condições climáticas adequadas e equipamentos aprovados pelo MAPA. Não é recomendação — é obrigação legal.

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Na prática, contudo, o descumprimento é rotineiro. No Brasil continental, a fiscalização não chega a todos os cantos. Logo, o apicultor não recebe aviso. A família da roça vizinha não sabe de nada — até o dia em que as colmeias silenciam.

Nesse sentido, não é má vontade de um ou outro fazendeiro. É um sistema inteiro que funciona sem controle, sem registro, sem responsabilidade. Enquanto isso não mudar, quem paga a conta são sempre os mesmos: os mais vulneráveis, os de menos voz, os que vivem da terra e dependem dela para sobreviver.

Quer entender como o GeoIBRAM transforma o descumprimento da lei em infração documentada e rastreável? O IBRAM detalhou o mecanismo neste artigo.

A Proteção Começa com um Cadastro

Por isso, apicultores, meliponicultores e associações devem se cadastrar gratuitamente no GeoIBRAM e façam parte da maior rede de proteção da cadeia apícola do Brasil. Afinal, cada apiário registrado no mapa torna possível o aviso obrigatório de 48 horas — e torna rastreável o descumprimento da lei. Cada associação cadastrada fortalece a rede contra o veneno que voa sem controle.

Assim, formamos o escudo que a lei prevê mas o Estado ainda não garante.

👉 Cadastre-se gratuitamente no GeoIBRAM — Gratuito para apicultores e meliponicultores. R$ 25,00/mês para Produtor Rural.

IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
Setor Bancário Sul, Quadra 02, Edifício Empire Center, Brasília-DF, CEP 70070-904
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