Da Redação
Se você acompanha o mercado agro, certamente ouviu falar sobre o recente embargo da União Europeia ao mel e à carne brasileira. Mas o que quase ninguém percebeu é que o país está no meio de frentes complexas de pressão comercial ao mesmo tempo. Enfrentamos uma cota travada na China, um embargo sanitário da Europa e as recentes negociações tributárias com os Estados Unidos. Cada uma tem uma explicação “oficial” diferente. Mas juntas, elas desenham um padrão — e quem paga a conta nem sempre é quem você imagina.
1. A China fechou a torneira da carne brasileira
O Brasil já consumiu praticamente toda a cota de importação de carne bovina com tarifa reduzida permitida pela China para o ano. Qualquer carga adicional enviada para lá agora passa a pagar uma sobretaxa de 55%. Isso empurra a tarifa total para perto de 67%. Na prática, a exportação direta para o país asiático tornou-se inviável neste ritmo.
O impacto foi imediato. Frigoríficos de grande porte suspenderam temporariamente a produção de cortes específicos destinados à China em diversas plantas nacionais, aplicando férias coletivas. O teto definido pela China ficou muito abaixo do volume que o Brasil de fato vendeu no ano anterior. Claramente, a cota não reflete a capacidade de entrega do país. Ela funciona como um limite político e comercial deliberadamente mais apertado.
2. Entendendo o embargo da União Europeia
Em paralelo, a União Europeia publicou uma decisão oficial. Ela excluiu o Brasil da lista de países autorizados a exportar carnes, tripas, peixe e mel para o bloco econômico. O veto entrou em vigor recentemente.
O argumento oficial é sanitário. Bruxelas afirma que o Brasil não comprovou a eliminação do uso de certos antimicrobianos (antibióticos) em toda a cadeia produtiva animal. Embora o governo brasileiro tenha proibido essas substâncias como promotoras de crescimento, a União Europeia considerou a fiscalização insuficiente.
O ponto crítico é o timing. Esta decisão entrou em vigor logo após o avanço de termos do acordo comercial Mercosul-União Europeia. Ela também coincide com fortes protestos de agricultores europeus contra a concorrência sul-americana. Fica evidente o viés protecionista por trás da justificativa técnica.
3. O preço do mel e a vitória diplomática nos Estados Unidos
Este é o capítulo que quase ninguém lê até o fim. O mel brasileiro entrou no mesmo pacote do embargo europeu, fechando as portas de um mercado alternativo promissor. No entanto, o cenário do preço do mel ganhou fôlego novo do outro lado do Atlântico.
Apesar da ameaça inicial de uma sobretaxa americana de 25%, a pressão diplomática e o trabalho técnico do setor garantiram que o mel brasileiro ficasse totalmente fora do tarifaço dos EUA. Os norte-americanos compram cerca de 85% do mel exportado pelo Brasil. Essa isenção foi um fator decisivo para a sobrevivência do setor.
Com a manutenção do mercado americano sem tarifas, cai por terra qualquer justificativa econômica para as exportadoras continuarem achatando o valor pago ao produtor. O preço do mel, que chegou a despencar para R$ 12,00 no Nordeste e aviltantes R$ 8,00 em outras regiões sob o pretexto de um tarifaço inexistente, precisa ser imediatamente reajustado.
A realidade no campo é cruel. Os apicultores brasileiros hoje se submetem quase que exclusivamente às regras draconianas das exportadoras. Isso ocorre porque foram expulsos de seu próprio mercado nacional. O consumo doméstico no Brasil está sendo sistematicamente canibalizado pelo “preparado de mel”. Essas misturas industriais baratas de xarope de açúcar enganam o consumidor e desvalorizam o produto de verdade. Sem espaço nas gôndolas nacionais devido a essa concorrência desleal, os produtores não têm outra saída. Eles aceitam as migalhas impostas pelo cartel da exportação para não verem sua safra apodrecer.
4. O gargalo da exportação e a riqueza invisível do Nordeste
Jeovam Lemos Cavalcante, que é membro da Câmara Setorial do Mel do Ministério da Agricultura, fundador do Ibram e advogado da Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura (CBA), chama a atenção para um fato que pouca gente nota. O mel do semiárido nordestino é considerado totalmente orgânico pelo mercado global. Os Estados Unidos, nosso maior comprador, não exigem sequer certificação para esse produto. A pureza da nossa caatinga é reconhecida internacionalmente de forma natural.
Mesmo assim, a logística nacional impõe um gargalo incompreensível e revoltante ao setor. Mais de 12 mil toneladas de mel produzidas no Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia precisam ir para exportadores do Sudeste e do próprio Nordeste antes de seguir viagem.
No caso específico do Ceará, apenas 1.000 toneladas são exportadas de forma direta por empresas locais. Essa operação é feita pela Matrunita, no Crato, e pela Néctar Floral, em Aquiraz.
As 5 mil toneladas restantes saem do território cearense de caminhão. Não se sabe exatamente quanto desse volume vai para o Piauí ou para os compradores do Sudeste. Essa divisão é incerta porque simplesmente não existe nenhum controle ou rastreamento desse fluxo.
Imaginem a gravidade desta situação. O mel que é enviado ao Piauí faz todo o caminho de volta pelas estradas. Ele retorna apenas para ser embaquetado no Porto do Pecém, localizado no próprio Ceará.
Essa triangulação absurda encarece o frete, gera impostos desnecessários e destrói a margem de ganho local. Ela retira a riqueza da origem e joga para baixo o preço do mel pago diretamente ao apicultor familiar.
5. Por que a corda sempre arrebenta no lado do pequeno?
Essas barreiras e flutuações comerciais não afetam a todos da mesma maneira.
Gigantes como JBS, Marfrig e Minerva possuem plantas industriais em vários países. Elas atuam nos Estados Unidos, Austrália e Uruguai. Se o mercado europeu ou chinês fecha as portas para a carne que sai do Brasil, essas corporações simplesmente redirecionam as exportações. Elas usam suas plantas no exterior e contornam as sanções.
O frigorífico médio ou pequeno, que opera exclusivamente em solo brasileiro, não tem essa saída. Ele perde o contrato ou é obrigado a desovar a produção no mercado interno com margens de lucro esmagadas. O mesmo se aplica ao apicultor. Sem escala, certificação internacional e conformidade jurídica rigorosa, ele fica refém de atravessadores que controlam o preço do mel localmente.
O produtor de mel é, em sua maioria, um pequeno agricultor familiar e protetor ambiental nos termos da Lei 14.119/21. Para que a cadeia continue sustentável e as colmeias ativas, a indústria precisa pagar um preço do mel condizente com a realidade do mercado internacional.
Como parte desse esforço contínuo de fortalecimento institucional e jurídico para garantir a justiça no campo, a CBA segue atuando em diversas frentes. A atuação jurídica da entidade pode ser consultada no artigo sobre a competência da Justiça do Trabalho e o uso de novas tecnologias no setor.
6. O combate aos “preparados” para proteger o preço do mel puro
Para Jeovam Lemos Cavalcante, sócio da Advocacia Carvalho Cavalcante, a recuperação da cadeia apícola nacional passa por uma moralização urgente do mercado de consumo nacional.
Essa batalha jurídica e institucional contra as fraudes já acumula episódios decisivos nos tribunais. Um dos marcos recentes é a disputa legal em que a Justiça do Ceará calou o preparado de mel, com as razões de apelação apresentadas pela CBA e pelo Ibram ao TRF5. Essa ação demonstra a firmeza do setor contra a concorrência desleal desse tipo de produto que puxa o preço do mel para baixo no Brasil.
Cavalcante aponta que o setor só se recuperará de forma efetiva quando os chamados “preparados de mel” forem retirados de vez das gôndolas. Além disso, a indústria alimentícia deve ser obrigada a utilizar mel puro em suas receitas. Isso evitaria casos como os de iogurtes que estampam o termo em suas embalagens, mas usam apenas aromatizantes e açúcares invertidos.
7. O espelho da moeda: as barreiras internas do Brasil
Enquanto o produtor brasileiro sofre para exportar, quem quer vender para o mercado interno enfrenta um dos ambientes mais fechados do mundo. A carga tributária sobre perfumes importados atinge 79% do preço final. Um celular que custa US$ 799 nos EUA ultrapassa R$ 7.000 nas lojas brasileiras. Esse aumento ocorre devido ao empilhamento de Imposto de Importação, ICMS e taxas aduaneiras.
Dados do Banco Mundial sustentam que o coeficiente de abertura comercial do Brasil ficou em 35,6%. Esse patamar é inferior à média da América Latina na década de 90. No Open Market Index, o Brasil figura como o país menos aberto entre todos os membros do G20.
O mesmo país que impõe barreiras severas ao consumo interno é o que sofre com as barreiras sanitárias e políticas de China e Europa. Em ambos os lados, quem não tem estrutura global ou assessoria técnica de ponta acaba pagando a conta. O resultado direto é a queda drástica na rentabilidade e no preço do mel.
Como se proteger em um mercado que pune a falta de dados?
O embargo europeu e o cerco das fiscalizações provam que o cenário atual exige cautela. O produtor e o operador que não documentam sua conformidade técnica estão assumindo um risco financeiro insustentável. A fiscalização ambiental e as exigências internacionais não dão avisos prévios. Sem provas georreferenciadas na porteira, a sua defesa técnica não existe.
Não espere um embargo ou uma autuação paralisarem sua atividade. Descubra agora se sua área, seu apiário ou sua operação de drone estão em conformidade com as regras do IBAMA, MAPA e órgãos estaduais.
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