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Glifosato e Larvas de Abelhas Nativas: O Que a Ciência Brasileira Já Documentou
O glifosato é o herbicida mais usado no Brasil. Ele não foi criado para atacar insetos. Mas a ciência brasileira está documentando o que acontece quando a larva da abelha sem ferrão cresce em uma colmeia que recebeu pólen contaminado.
Quando o agricultor aplica glifosato na lavoura, o alvo são as plantas invasoras. O produto bloqueia uma enzima chamada EPSPS, fundamental para que as plantas produzam aminoácidos essenciais. Sem essa enzima, a planta morre.
O problema começa quando percebemos que essa mesma enzima existe em outros organismos — bactérias, fungos, microrganismos do solo. E que as abelhas, ao forragearem, entram em contato com o produto no campo e o trazem de volta à colmeia no pólen e no néctar que coletam.
O que acontece então com a larva que se alimenta desse pólen?
O que a ciência brasileira já documentou
Evidência 01
Crescimento mais lento e maior mortalidade larval. Estudo publicado pela Academia Chinesa de Agricultura documentou que larvas expostas ao glifosato crescem mais lentamente e morrem com mais frequência do que larvas do grupo controle. O produto não causa morte imediata — ele retarda e fragiliza.
Evidência 02
Deformações morfológicas em doses subletais. Dissertação de mestrado da Universidade Federal de Alfenas (2021) avaliou a Frieseomelitta varia — a Marmelada, abelha nativa comum na Caatinga e no Cerrado — criada in vitro com doses subletais de glifosato. Os resultados registraram alterações morfológicas nas larvas: o produto, mesmo em concentrações que não matam, modifica a forma como o corpo da larva se desenvolve.
Evidência 03
Destruição da microbiota intestinal. O glifosato tem ação bactericida — bloqueia a enzima EPSPS presente em bactérias. Pesquisa da Universidade de Austin documentou que abelhas expostas ao herbicida apresentam redução significativa de espécies microbianas no intestino. Com microbiota empobrecida, ficam mais vulneráveis a infecções e com sistema imune comprometido.
Evidência 04
Danos ao corpo gorduroso e ao sistema imunológico. Pesquisa publicada na revista Environmental Pollution (UNESP/UFSCar/UFV, 2024) avaliou a Melipona scutellaris — a Uruçu-nordestina — exposta oralmente ao glifosato por 48 horas. Resultado: danos morfológicos no corpo gorduroso (órgão equivalente ao fígado das abelhas) e comprometimento de proteínas do sistema imune. Sem morte imediata. Com colapso sistêmico progressivo.
Evidência 05 — A mais crítica
A CL50 do glifosato para Scaptotrigona postica está dentro das concentrações recomendadas em campo. Dissertação de mestrado da UFMS (2023) determinou a concentração letal mediana do glifosato para a Mandaguari-preta e concluiu que esse valor se encontra dentro da faixa de concentração recomendada para uso agrícola. A dose que mata metade das abelhas testadas é compatível com o que chega ao campo na prática.
Por que a larva é mais vulnerável A larva da abelha sem ferrão vive dentro de uma célula fechada. Ela não sai ao campo. Ingere exclusivamente o alimento depositado pelas operárias antes do fechamento da célula. Se esse alimento contém resíduos de glifosato, a larva estará exposta durante todo o seu desenvolvimento — sem possibilidade de se afastar da fonte de contaminação.
Como o glifosato chega à colmeia
| Via de entrada | Como ocorre |
|---|---|
| Pólen contaminado | Campeiras coletam pólen de plantas em áreas tratadas. Estudo documentou resíduos de glifosato no néctar da colmeia chegando a 31,3 mg/kg após aplicação controlada — mais de cem vezes a concentração anterior ao tratamento. |
| Água próxima à lavoura | O glifosato é solúvel em água e pode contaminar córregos, açudes e fontes que as abelhas utilizam para regular a temperatura da colmeia e preparar o alimento larval. |
| Deriva da pulverização | A aplicação por drone ou trator projeta gotículas que podem alcançar a entrada da colmeia, plantas nativas próximas e fontes de água no raio de forrageamento das abelhas. |
O ponto central: a tolerância é diferente entre espécies
Revisão publicada na Revista Brasileira de Meio Ambiente reuniu 23 estudos sobre herbicidas e abelhas. Em 78% deles, o glifosato foi o herbicida avaliado. Os estudos confirmam: as reações ao glifosato não são iguais entre Apis mellifera e as abelhas sem ferrão. Existem diferenças documentadas de tolerância entre as espécies para esse herbicida.
Apesar disso, o sistema oficial de registro no Brasil avalia os riscos do glifosato usando exclusivamente a Apis mellifera adulta — conforme o protocolo da OECD de 1998, adotado internacionalmente. As mais de 300 espécies de abelhas nativas brasileiras não são representadas nessa avaliação.
300+ espécies de abelhas nativas no Brasil não avaliadas nos protocolos oficiais de registro
72% dos ensaios mostram que abelhas sem ferrão são mais sensíveis que Apis mellifera a pesticidas (UNESP/Austrália)
1998 ano do protocolo OECD que ainda orienta as avaliações de risco para registro de agrotóxicos no Brasil
O que o apicultor e o agricultor familiar podem exigir
A lacuna regulatória só se fecha com pressão organizada — dos criadores de abelhas, dos agricultores familiares e dos moradores rurais junto aos órgãos competentes: MAPA, IBAMA e ANVISA.
Registre sua colmeia ou apiário no GeoIBRAM. Esse registro documenta a presença de polinizadores na sua área e é o instrumento legal para exigir a notificação prévia obrigatória antes de qualquer aplicação de defensivos — incluindo herbicidas como o glifosato — nas proximidades da sua criação, conforme a IN MAPA 02/2008.
Fontes científicas Silva, J. A. (2021). Criação in vitro de Frieseomelitta varia e efeitos de doses subletais de glifosato na morfologia. UNIFAL. · Farder-Gomes, C. F. et al. (2024). Efeitos subletais de imidacloprido, piraclostrobina e glifosato em Melipona scutellaris. Environmental Pollution. UNESP/UFSCar/UFV. · UFMS (2023). Ecotoxicidade do glifosato em Scaptotrigona postica — biomarcadores de oxidação. Mestrado em Ciências Veterinárias. · Monquero & Oliveira (2018). Os herbicidas causam impactos na sobrevivência e desenvolvimento de abelhas? Revista Brasileira de Herbicidas. · Motta, E. et al. (2018). Glyphosate perturbs the gut microbiota of honey bees. Universidade de Austin/PNAS. · Revisão RVBMA (2024). Os impactos dos herbicidas em abelhas nativas brasileiras. Revista Brasileira de Meio Ambiente.
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