Imagine um pote de iogurte “com mel”. Agora imagine que, de cada 100 gramas desse ingrediente, até 65 gramas são açúcar puro — e só 10 gramas são mel de verdade. É exatamente isso que as fichas técnicas dos fabricantes revelam sobre o preparado de mel usado por grandes laticínios no Brasil.
A Federação Cearense de Apicultura e Meliponicultura (FECAP), com apoio do setor apícola cearense, vai apresentar pedido de reconsideração contra a decisão do Ministério Público Federal (MPF) que arquivou a apuração sobre o uso do nome “mel” nesses iogurtes.
O que é o preparado de mel usado no iogurte
A denúncia começou de forma simples: laticínios vendiam iogurte “com mel” quando, na prática, usavam um insumo industrial — o preparado de mel — composto majoritariamente de açúcar e água. O Ministério da Agricultura (MAPA) foi ouvido pelo MPF e defendeu que o problema já estava resolvido: bastou trocar a palavra “Mel” por “Preparado de Mel” no rótulo. O MPF aceitou essa explicação e arquivou o inquérito.
Por que a categoria não aceita esse desfecho
A troca de nome não resolveu nada de fato. As imagens de colmeia, favo e mel escorrendo continuam nos rótulos. A composição continua sendo, em sua maioria, açúcar. E o próprio Decreto que regula produtos de origem animal (o RIISPOA) proíbe expressamente o uso de açúcar como “veículo” para diluir produtos de abelha — uma regra que a simples mudança de nome não cumpre.
Mais grave: não existe, até hoje, nenhuma norma pública — nem instrução normativa, nem portaria — que autorize essa nomenclatura. O que existe são auditorias pontuais, feitas caso a caso, sem que o MAPA nunca tenha assumido, formalmente, competência sobre esse insumo. Documentos do próprio MAPA, obtidos pela FECAP, mostram que, mesmo depois da troca de nome, auditorias internas do órgão já reconheciam que o problema visual do rótulo não tinha sido corrigido.
Um mercado que já existiu — e que a apicultura cearense viveu de perto
O uso do preparado de mel no lugar do mel de verdade não é uma evolução natural da indústria — é uma substituição. E essa história tem número e tem endereço: por volta de 2007, um entreposto cearense de médio porte — o Mel Esperança, do Grupo Edson Queiroz — entregava mensalmente cerca de 30 toneladas de mel puro à indústria alimentícia do estado. Além da produção de apiários próprios, o entreposto comprava de outros apicultores, inclusive de fora do Ceará, como o Piauí, para sustentar esse volume. (Leia mais sobre esse período em Mel Orgânico Ceará: Por que Vai para a Bélgica e Não para o Supermercado.)
Não se tratava de uma operação pequena ou informal. O Grupo Edson Queiroz — o mesmo por trás da Fundação Edson Queiroz e da Universidade de Fortaleza (Unifor) — mantinha seis unidades produtoras de mel entre Ceará, Piauí e Maranhão, com uma central de beneficiamento em Cascavel (CE) capaz de processar até 100 toneladas por mês.
Hoje, essas mesmas indústrias não compram mais um único quilo de mel legítimo do campo cearense. O preparado de mel conquistou 100% desse mercado — e o entreposto fechou.
Esse é o contraste que a categoria quer que fique claro: não se trata de um insumo que “sempre foi assim”. Existiu uma cadeia real de fornecimento de mel puro para a indústria de alimentos, com volume relevante e estrutura funcionando, que foi sendo substituída por um produto mais barato — mantendo, no rótulo, o nome e as imagens que vendem a promessa do mel.
Não é só a Tirol: o mesmo padrão em seis grandes marcas
Para verificar se o problema estava restrito a um único fabricante, conferimos os rótulos atualmente vendidos no mercado de outras grandes marcas de laticínios. O resultado mostra que a prática é do setor, não de uma empresa isolada:
| Marca | Como o preparado de mel aparece no rótulo |
|---|---|
| Nestlé | preparado de mel (água, xarope de açúcar, mel, amido modificado, açúcar…) |
| Danone | preparado de mel (água, mel, açúcar, amido modificado…) |
| Vigor | preparado de mel (açúcar, suco de maçã, mel, amido modificado…) |
| Itambé | preparado de mel (água, açúcar, mel, amido modificado…) |
| Betânia | preparado de mel (açúcar, água, mel de abelhas…) |
| Batavo | preparado de mel (água, frutose, mel, amido modificado…) |
Em todas elas, dentro do parêntese que descreve o preparado, o mel aparece depois de água, açúcar ou xarope de açúcar — o que, pela regra de rotulagem de ordem decrescente de quantidade, confirma que esses ingredientes estão em maior proporção do que o próprio mel. É o mesmo padrão de composição que a FECAP já documentou no caso da Tirol, agora replicado pelas maiores marcas do país.
(Levantamento próprio a partir de rótulos disponíveis publicamente em julho de 2026; composições podem ser alteradas pelos fabricantes a qualquer momento — antes de qualquer uso jurídico desses dados, recomenda-se conferir a embalagem atual do produto.)
O que a FECAP está pedindo
O recurso pede que o MPF reconsidere o arquivamento e reabra a apuração ou, subsidiariamente, que o caso seja levado à 1ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal — instância que revisa decisões de arquivamento em todo o país. Entre os pedidos, está a exigência de que o MAPA explique, com base em qual norma, orientou as empresas a adotar esse nome, e que a ANVISA se manifeste novamente sobre a compatibilidade dos rótulos atuais com as regras de proteção ao consumidor.
Por que isso importa para quem vive da apicultura
Não se trata só de um rótulo mal escrito. Enquanto o mercado aceitar que um produto quase sem mel possa carregar o nome do mel para vender mais, o produto do apicultor brasileiro — feito de verdade, na colmeia — perde valor e credibilidade diante do consumidor. Defender o nome “mel” é defender o trabalho de quem cria abelhas. (Veja também: Concorrência Desleal na Apicultura: o Golpe do Mel Falso.)
Leia a íntegra do recurso
Este resumo traz só o essencial. Para quem quiser entender a fundo cada argumento técnico e jurídico levantado — da composição real do preparado de mel às contradições encontradas nos próprios documentos do MAPA — disponibilizamos abaixo o texto completo do recurso protocolado junto à Procuradoria da República no Ceará.
Baixe aqui o inteiro teor do Pedido de Reconsideração (PDF) (link para o arquivo anexado a este post)
O IBRAM vai acompanhar o andamento do recurso e manter a categoria informada a cada nova decisão.

