Em 1957, a fuga de 26 colônias de abelhas africanas de um experimento realizado no interior de São Paulo iniciou uma transformação que mudaria a apicultura brasileira e, posteriormente, as populações de abelhas em grande parte das Américas.
Mas existe um detalhe importante nessa história que muitas vezes é esquecido:
quando as abelhas africanas se dispersaram, o Brasil já possuía populações de abelhas europeias — entre elas, as conhecidas abelhas italianas.
Por isso, a chamada abelha africanizada não é simplesmente uma abelha africana que passou a viver no Brasil.
Ela resulta de cruzamentos entre diferentes populações de Apis mellifera, seguidos por décadas de adaptação, seleção natural e manejo realizado por pesquisadores e apicultores.
Por que o Brasil trouxe abelhas africanas?
Na década de 1950, as abelhas europeias criadas no Brasil nem sempre apresentavam o desempenho desejado nas condições tropicais.
Nesse contexto, o geneticista brasileiro Warwick Estevam Kerr buscou na África rainhas consideradas mais produtivas e adaptadas ao clima quente.
Segundo a matéria publicada pela Exame em 29 de setembro de 2026, Kerr percorreu regiões africanas entre agosto e dezembro de 1956 em busca dessas linhagens.
O objetivo era desenvolver pesquisas e melhorar a produtividade da apicultura brasileira.
Entretanto, no ano seguinte, 26 colônias deixaram o experimento.
A partir daí, começou um processo que ultrapassou os limites da pesquisa.
E onde entram as abelhas italianas?
Esse é um ponto essencial.
Antes da chegada das africanas, já existiam no Brasil populações europeias de Apis mellifera.
Entre elas estavam as italianas, conhecidas cientificamente como Apis mellifera ligustica.
Também havia populações de outras origens europeias.
Warwick Kerr explicou posteriormente que a nova população africanizada resultou da combinação de diferentes linhagens de Apis mellifera, entre elas a italiana, além de outras europeias, sob forte influência do ambiente brasileiro e da seleção realizada pelos próprios apicultores e cientistas.
Portanto, quando as africanas começaram a se espalhar, elas não encontraram um território sem outras abelhas da mesma espécie.
Encontraram populações europeias já estabelecidas e cruzaram com elas.
Por isso se chama “africanizada”, e não simplesmente “africana”
Essa diferença é importante.
A abelha que se tornou predominante na apicultura brasileira não corresponde simplesmente à população africana introduzida originalmente.
Ela resulta de um processo de hibridização, adaptação e seleção.
Entre 1957 e 1964, segundo relato do próprio Warwick Kerr, ocorreram cruzamentos com populações alemãs, italianas e portuguesas já presentes no país.
Ao mesmo tempo, o ambiente tropical brasileiro favoreceu características adaptativas próprias.
Por isso, a africanizada é resultado de uma história biológica e também de uma história da apicultura.
A chegada das africanizadas obrigou a apicultura a mudar
A expansão dessas abelhas trouxe dificuldades importantes.
Algumas colônias apresentavam comportamento defensivo mais intenso do que aquele ao qual muitos apicultores estavam acostumados.
Assim, práticas comuns na época precisaram ser revistas.
Pesquisadores e apicultores desenvolveram técnicas relacionadas a:
- localização dos apiários;
- equipamentos de proteção;
- uso adequado de fumigadores;
- seleção de rainhas;
- escolha de colônias mais produtivas;
- redução da defensividade;
- resistência a doenças e parasitas.
Warwick Kerr relatou que equipes de pesquisadores e apicultores trabalharam intensamente nesse processo de adaptação.
Portanto, a história da africanização também é a história da evolução técnica da apicultura brasileira.
As italianas não desapareceram da história
Durante determinado período, pesquisadores chegaram inclusive a utilizar novamente rainhas italianas em programas de seleção destinados a reduzir a defensividade das populações.
Kerr relatou a introdução de milhares de rainhas originadas de linhagens italianas selecionadas.
Entretanto, segundo ele, os apicultores perceberam também diferenças importantes de produtividade e adaptação entre as populações.
Assim, o resultado final não foi simplesmente a substituição de uma raça pela outra.
Foi um processo de seleção que contribuiu para formar a realidade apícola brasileira atual.
De problema inicial a base da apicultura brasileira
Nas primeiras décadas, a africanização foi muitas vezes apresentada apenas como um problema.
Com o tempo, porém, o manejo evoluiu.
Os apicultores aprenderam a trabalhar com essas populações e a selecionar colônias mais produtivas e adequadas.
Hoje, as abelhas africanizadas constituem a base de grande parte da apicultura brasileira.
Por isso, reduzir essa história à expressão “26 colmeias escaparam” deixa de fora uma parte essencial do processo.
Depois da fuga vieram:
cruzamento, adaptação, seleção, pesquisa e aprendizado.
O mito da “abelha assassina” simplificou demais a história
Por muitos anos, principalmente fora do Brasil, as africanizadas foram associadas à expressão “abelhas assassinas”.
Esse rótulo ajudou a criar uma imagem pública exageradamente simplificada.
Abelhas defendem suas colônias.
Entretanto, o comportamento defensivo pode variar conforme genética, ambiente, condições da colônia e manejo.
Por isso, conhecimento técnico e seleção são mais úteis do que transformar a abelha em inimiga.
A própria história brasileira demonstrou que práticas corretas de manejo permitiram construir uma atividade apícola produtiva baseada nessas populações.
E há outro aspecto: a polinização
As abelhas africanizadas não são importantes apenas pela produção de mel, própolis, cera e outros produtos da colmeia.
Elas também realizam polinização.
Ao visitar as flores em busca de néctar e pólen, contribuem para a reprodução de plantas cultivadas e silvestres.
Assim, sua presença interessa não apenas ao apicultor.
Interessa também à agricultura, à biodiversidade e à conservação dos ecossistemas.
A abelha presta o serviço ecossistêmico
A polinização é um serviço ecossistêmico.
Já o trabalho humano destinado a proteger os enxames, conservar ambientes favoráveis e manter condições para que a polinização continue pode integrar iniciativas de serviços ambientais, observados os requisitos legais.
Por isso, o IBRAM adota uma distinção fundamental:
A abelha presta o serviço ecossistêmico.
A pessoa presta o serviço ambiental.
Essa compreensão também é importante para o desenvolvimento de projetos de Pagamento por Serviços Ambientais — PSA — relacionados à apicultura e à polinização.
Uma história que começou em 1957 e ainda continua
Quase sete décadas depois, as consequências daquele episódio ainda estão presentes nos apiários brasileiros.
Mas a história não deve ser contada apenas como a fuga de 26 colônias africanas.
Antes delas, havia abelhas europeias.
Entre elas, havia as italianas.
Depois vieram os cruzamentos.
E, sobretudo, vieram décadas de adaptação, seleção e conhecimento produzido por pesquisadores e apicultores.
A africanização não é apenas a história de um acidente.
É também a história de como a apicultura brasileira aprendeu a transformar um enorme desafio em uma população de abelhas adaptada às condições do país.
Hoje, o novo desafio é outro:
proteger essas abelhas, valorizar a polinização e reconhecer a importância de quem trabalha para conservar os polinizadores.
Fonte principal
Exame — 29 de setembro de 2026
“Como 26 colmeias que escaparam no Brasil mudaram as abelhas das Américas”
IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
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