Por que as abelhas africanizadas não cruzaram com as abelhas nativas?

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Quando as abelhas africanas chegaram ao Brasil e começaram a cruzar com populações europeias já existentes, surgiu uma nova população: as chamadas abelhas africanizadas.

Mas uma dúvida permanece:

se elas cruzaram com italianas, alemãs e outras abelhas europeias, por que não cruzaram também com as abelhas nativas brasileiras?

A resposta está na biologia.

Africanas, italianas e alemãs pertenciam à mesma espécie

As abelhas envolvidas no processo de africanização pertenciam à espécie Apis mellifera.

A italiana, por exemplo, é conhecida como Apis mellifera ligustica. Já a africana introduzida no Brasil estava relacionada à Apis mellifera scutellata.

Embora apresentassem diferenças de comportamento, aparência e adaptação ao ambiente, pertenciam à mesma espécie.

Por isso, podiam cruzar entre si e produzir descendentes férteis.

Foi justamente esse processo que contribuiu para a formação das populações africanizadas encontradas hoje no Brasil.

As abelhas nativas pertencem a outros grupos

Com as abelhas nativas brasileiras, a situação é diferente.

Jataí, uruçu, mandaçaia, tiúba e muitas outras abelhas sem ferrão não são variedades de Apis mellifera.

Elas pertencem a outros gêneros e espécies.

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O próprio Ministério da Agricultura diferencia claramente esses grupos: as abelhas africanizadas pertencem à tribo Apini, enquanto as abelhas sem ferrão pertencem à tribo Meliponini.

Assim, apesar de todas serem abelhas, existe uma distância biológica e genética importante entre elas.

Por isso, não houve cruzamento

Em termos simples:

africanas e italianas podiam cruzar porque eram populações da mesma espécie.

Já as abelhas nativas brasileiras pertenciam a espécies diferentes.

Por isso, não ocorreu a mesma hibridização.

A africanização modificou profundamente as populações de Apis mellifera existentes no Brasil, mas não transformou as abelhas nativas em africanizadas.

As abelhas nativas continuaram sendo nativas

Esse ponto é importante porque ainda existe muita confusão sobre o assunto.

Quando se fala em “africanização das abelhas brasileiras”, isso não significa que todas as espécies de abelhas presentes no país tenham se tornado africanizadas.

O processo ocorreu dentro das populações de Apis mellifera.

As abelhas nativas sem ferrão continuaram pertencendo às suas próprias espécies e linhagens evolutivas.

Portanto, apicultura e meliponicultura permaneceram atividades biologicamente distintas.

Apicultura e meliponicultura não são a mesma coisa

A criação de Apis mellifera, incluindo as africanizadas, é chamada de apicultura.

Já a criação de abelhas sem ferrão, como jataí, uruçu e mandaçaia, é chamada de meliponicultura.

São atividades próximas, mas envolvem espécies, técnicas de manejo e características biológicas diferentes.

O próprio MAPA trata Apis mellifera e os Meliponini como grupos distintos para fins de manejo e sanidade.

O mel também é diferente

Essa diferença aparece também no produto final.

O mel da abelha africanizada e o mel das abelhas nativas não são iguais.

O de Apis mellifera costuma apresentar menor teor de umidade e maior estabilidade.

Já muitos méis de abelhas sem ferrão apresentam maior umidade e maior acidez, além de características sensoriais próprias. Uma revisão sistemática publicada em 2024 encontrou, em média, maior teor de umidade e maior acidez livre nos méis de abelhas sem ferrão em comparação com o mel de Apis mellifera.

Além disso, cada espécie nativa pode produzir um mel com características próprias.

Por isso, não existe um único padrão de “mel de abelha nativa”.

O produto pode variar conforme:

  • espécie da abelha;
  • origem floral;
  • região;
  • clima;
  • época de colheita;
  • condições de armazenamento.

A própria literatura científica destaca que espécie, flora, clima e localização geográfica influenciam a composição do mel.

O que africanizadas e nativas têm em comum?

Apesar das diferenças genéticas, existe algo fundamental que aproxima esses grupos:

a polinização.

Tanto as abelhas africanizadas quanto muitas espécies nativas visitam flores e contribuem para a reprodução das plantas.

Desse modo, ambas possuem enorme importância para a agricultura, para a biodiversidade e para os ecossistemas.

A diferença genética não diminui a importância de nenhuma delas.

Ao contrário, mostra por que conservar a diversidade de polinizadores é tão importante.

A diversidade das abelhas também precisa ser protegida

O Brasil não possui apenas uma “abelha”.

Possui diferentes espécies, comportamentos, tamanhos e estratégias de vida.

A abelha africanizada possui enorme importância para a apicultura.

As abelhas nativas, por sua vez, fazem parte da biodiversidade brasileira e desempenham funções ecológicas fundamentais.

Portanto, proteger as abelhas significa proteger essa diversidade.

E a distinção defendida pelo IBRAM continua essencial:

A abelha presta o serviço ecossistêmico.
A pessoa presta o serviço ambiental.

Preservar diferentes espécies de polinizadores significa também proteger a agricultura, a vegetação nativa e os processos ecológicos dos quais todos dependemos.


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IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura

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