A Lei 8.267/2023, do Estado do Piauí, entrou no campo de análise constitucional após representação apresentada pelo Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura — IBRAM ao Ministério Público Federal.
A norma estadual trata do consumo de matéria-prima florestal e da reposição florestal obrigatória. Contudo, após examinar a questão, o procurador da República Alexandre Assunção e Silva concluiu que dispositivos da lei contrariam o Código Florestal, instituído pela Lei Federal nº 12.651/2012.
Além disso, segundo a manifestação do procurador, a norma estadual afronta princípios constitucionais relacionados à proteção do meio ambiente.
O que o MPF concluiu sobre a Lei 8.267/2023?
A análise do MPF não se limitou à conveniência da política estadual. O ponto central foi verificar se o Piauí poderia estabelecer regras menos protetivas do que aquelas previstas na legislação federal.
De acordo com a conclusão apresentada, a Lei 8.267/2023 ultrapassou os limites da competência legislativa estadual. Portanto, em vez de complementar a norma federal, a legislação piauiense teria contrariado o sistema de proteção estabelecido pelo Código Florestal.
Essa distinção é importante. Os estados podem editar normas ambientais próprias. Entretanto, não podem utilizar essa competência para reduzir o nível de proteção definido pela legislação federal.
Caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República
O procurador da República reconheceu a existência de fundamentos para o questionamento constitucional. Contudo, ele não possui competência para propor diretamente uma Ação Direta de Inconstitucionalidade perante o Supremo Tribunal Federal.
Por essa razão, o caso foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, responsável por avaliar a adoção das providências cabíveis.
O encaminhamento não significa que a Ação Direta de Inconstitucionalidade já tenha sido proposta. Também não representa, por si só, a suspensão ou anulação da lei. Significa, porém, que a representação do IBRAM foi considerada juridicamente relevante e avançou para análise na instância competente.
Por que o IBRAM questionou a lei?
A supressão e a exploração da vegetação não afetam apenas a quantidade de árvores existente em determinado território. Elas também interferem na oferta de flores, resinas, locais de nidificação e outros recursos necessários à sobrevivência dos polinizadores.
Consequentemente, normas sobre consumo de matéria-prima e reposição florestal produzem efeitos que alcançam a apicultura, a meliponicultura, a biodiversidade e a própria produção agrícola.
A reposição florestal precisa representar uma compensação ambiental efetiva. Caso contrário, ela corre o risco de se transformar apenas em uma obrigação formal, sem recuperar adequadamente as funções ecológicas perdidas.
Por isso, o IBRAM levou a questão ao Ministério Público Federal. A iniciativa buscou preservar a aplicação do Código Florestal e impedir eventual redução da proteção ambiental por meio de legislação estadual.
Representação do IBRAM produz resultado institucional
A manifestação do MPF demonstra a importância da participação das entidades da sociedade civil na fiscalização das políticas ambientais.
Nesse caso, o IBRAM identificou o possível conflito legislativo, apresentou a representação e provocou a análise do órgão federal. Como resultado, a questão chegou à Procuradoria-Geral da República.
Agora, o IBRAM acompanhará o andamento do caso e as providências que poderão ser adotadas pela PGR. A defesa das abelhas exige mais do que ações simbólicas: requer proteção efetiva da vegetação, respeito à legislação ambiental e atuação institucional permanente.
A representação não encerrou o debate, mas fez com que a constitucionalidade da lei estadual fosse formalmente examinada pelo Ministério Público Federal.
IBRAM — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
Defesa institucional da apicultura, da meliponicultura, dos polinizadores e dos serviços ambientais prestados pelas abelhas.

