Frutas para o mundo, casas vazias no sertão: quem ficou fora do crescimento do Nordeste?

admin

A fruticultura no Nordeste apresenta números que impressionam. A região ampliou a produção, conquistou mercados internacionais e transformou polos irrigados em referências mundiais. Entretanto, longe das vitrines da exportação, perímetros públicos perderam capacidade produtiva, pequenos agricultores ficaram sem assistência e famílias abandonaram suas casas rurais.

Essa realidade não desmente o crescimento. Pelo contrário: ela revela que o avanço ocorreu de forma desigual. Enquanto alguns territórios reuniram água, capital, tecnologia, certificação e acesso aos compradores, outros não conseguiram converter obras públicas de irrigação em renda permanente para as famílias.

O caso do Perímetro Irrigado Icó–Lima Campos, no Ceará, ajuda a compreender essa contradição. Além disso, ele levanta uma pergunta incômoda: por que o poder público cria novos assentamentos rurais enquanto estruturas irrigadas antigas permanecem subutilizadas?

A primeira contradição aparece na própria notícia

Uma reportagem da Band anunciou no título que o Nordeste responde por 90% das exportações brasileiras de frutas frescas. No entanto, o próprio texto afirma que a região representa mais de 70% do total de frutas frescas exportadas e 90% das exportações de uvas sem sementes.

Portanto, o percentual de 90% não se aplica, segundo o corpo da reportagem, a todas as frutas frescas. Aplica-se especificamente às uvas sem sementes. A diferença não invalida a importância econômica da região, mas exige precisão. Afinal, um diagnóstico sério começa pela leitura correta dos números.

A reportagem também informa que a produção regional passou de 9,8 milhões de toneladas, em 2020, para 11,6 milhões, em 2024. Assim, houve crescimento de 19% em quatro anos. Esse resultado confirma a força produtiva nordestina, sobretudo nos polos de agricultura irrigada.

O crescimento existe, mas não alcança todos da mesma forma

Grandes empreendimentos exercem papel relevante nesse avanço, especialmente porque conseguem financiar irrigação de alta eficiência, armazenagem, transporte refrigerado, certificações e contratos internacionais. Contudo, seria incorreto afirmar que apenas grandes produtores participam da fruticultura irrigada. Pequenos e médios agricultores também produzem frutas em vários perímetros.

A diferença está nas condições de permanência. Quem dispõe de crédito, escala, assistência técnica, organização comercial e acesso ao mercado suporta melhor as oscilações de preço e os custos de produção. Por outro lado, o agricultor familiar isolado costuma vender a intermediários, enfrenta dificuldade para renovar cultivos e nem sempre consegue pagar os custos de água, energia e manutenção.

Uma pesquisa do Banco do Nordeste sobre empresas irrigantes do Rio Grande do Norte reforça a vantagem de quem consegue entrar no mercado externo. O estudo identificou sobrevivência aproximada de 45% entre exportadoras após quatro décadas, contra cerca de 15% entre empresas que não exportavam. Embora o levantamento trate de empresas e de um território específico, ele mostra como a integração comercial pode mudar a capacidade de sobrevivência econômica.

Assim, a contradição não está entre produzir ou não produzir para exportação. Ela aparece quando o êxito de polos competitivos convive com comunidades próximas que não acessam as mesmas oportunidades.

Icó–Lima Campos: quando a infraestrutura existe, mas a produção recua

O Perímetro Irrigado Icó–Lima Campos nasceu para aproveitar a água pública, gerar trabalho e fortalecer a agricultura regional. Porém, uma reportagem do Diário do Nordeste, publicada em 2004, registrou um cenário preocupante: apenas 30% da área permanecia irrigada e produtiva, enquanto os 70% restantes dependiam de bombeamento e estavam paralisados havia quatro anos.

Naquele momento, o setor em funcionamento mantinha principalmente cultivos de arroz e banana. Já outra parte do perímetro enfrentava canais quebrados, interrupção da irrigação e perda de assistência técnica. A reportagem mencionou aproximadamente 180 produtores na área beneficiada e cerca de 280 colonos no segundo setor.

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Esses dados comprovam uma paralisação histórica expressiva. Entretanto, eles não autorizam afirmar que todo o perímetro esteja abandonado atualmente. Também não permitem publicar um número atual de hectares sem um levantamento oficial. Para isso, o DNOCS precisa informar a área implantada, a área efetivamente irrigada, os lotes ocupados, os lotes produtivos e a situação de cada infraestrutura.

Portanto, o diagnóstico responsável é este: há prova documental de que a maior parte da área estava paralisada em 2004; falta transparência pública suficiente para medir a situação atual.

Água armazenada não significa renda no campo

O açude Lima Campos oferece um exemplo claro. Um estudo acadêmico publicado em 2017 registra capacidade de 66,38 milhões de metros cúbicos e mostra que o reservatório também atendeu municípios paraibanos durante a seca, por meio de carros-pipa.

Garantir água para o consumo humano constitui prioridade legítima. Ainda assim, o episódio mostra que a existência física do reservatório não garante, por si só, produção rural sustentável. Para transformar água em renda, o Estado precisa integrar infraestrutura, operação, assistência técnica, crédito, organização dos produtores e comercialização.

Quando um desses elos falha, o canal pode existir sem levar prosperidade ao lote. Consequentemente, o agricultor envelhece, os filhos procuram trabalho na cidade e a casa rural perde sua função econômica.

Casa abandonada não prova falta de água — prova falta de futuro

O IBRAM já chamou atenção para esse fenômeno no artigo “Casa abandonada no sertão: não é falta de água”. A imagem da moradia vazia ao lado de um reservatório cheio resume uma falha de desenvolvimento: a política pública armazenou água, mas não construiu uma cadeia econômica capaz de manter a família no território.

Isso não significa que toda saída do campo resulte de abandono governamental. Famílias mudam por muitos motivos, inclusive estudo, saúde e escolha profissional. Porém, quando casas vazias se multiplicam ao redor de infraestrutura pública subutilizada, o poder público precisa investigar se faltaram renda, sucessão rural, assistência técnica ou acesso ao mercado.

Além disso, o esvaziamento rural transfere custos para as cidades. As famílias procuram moradia, trabalho, transporte, escola e saúde nas periferias urbanas. Desse modo, a perda de vitalidade no campo reaparece como pressão social no município.

Qual é o fundamento dos assentamentos rurais diante desse quadro?

A reforma agrária mantém fundamento constitucional. Os artigos 184 e 186 da Constituição autorizam a desapropriação de imóveis que não cumprem sua função social. Já o artigo 187 determina que a política agrícola considere crédito, preços, comercialização, assistência técnica, seguro, armazenamento e transporte.

Portanto, a contradição não está na existência dos assentamentos. Ela surge quando o Estado distribui terra sem garantir as condições necessárias para que a família produza e permaneça nela. Terra sem água segura, assistência, crédito, estrada e mercado pode apenas deslocar a pobreza para outro endereço.

Antes de abrir novas frentes, o poder público deveria avaliar se consegue recuperar áreas públicas já equipadas. Essa análise não substitui a reforma agrária nem impede novos assentamentos onde eles sejam necessários. Contudo, ela evita desperdiçar canais, açudes, estações de bombeamento, estradas e lotes que receberam investimento coletivo.

As cinco contradições que o discurso do sucesso esconde

  1. O título fala em 90%, mas o texto da Band atribui esse percentual às uvas sem sementes. Para o conjunto das frutas frescas, a reportagem informa participação superior a 70%.
  2. A produção cresce, mas os benefícios se concentram. O agricultor que acessa tecnologia, crédito e compradores avança mais rápido do que aquele que depende de atravessadores e assistência irregular.
  3. O Estado construiu infraestrutura, mas nem sempre sustentou sua operação. Canais e reservatórios não substituem gestão, manutenção e apoio produtivo.
  4. A região exporta alimentos, mas perde famílias rurais. O sucesso agregado pode coexistir com casas vazias e redução da agricultura familiar em determinados territórios.
  5. O país cria novos assentamentos enquanto áreas irrigadas antigas aguardam recuperação. Sem um inventário público, a sociedade não sabe quanto patrimônio permanece ocioso.

O que DNOCS, Codevasf e governos precisam responder?

O debate exige números verificáveis. Por isso, os órgãos públicos deveriam publicar, por perímetro irrigado:

  • a área total implantada e a área atualmente irrigada;
  • o número de lotes ocupados, produtivos, ociosos ou abandonados;
  • a situação dos canais, bombas, redes elétricas e estradas internas;
  • os volumes de água disponíveis e efetivamente distribuídos;
  • os investimentos realizados nos últimos dez anos;
  • os produtores atendidos por assistência técnica e crédito;
  • as culturas implantadas, a produção e a renda gerada;
  • os critérios usados para selecionar, substituir ou regularizar beneficiários;
  • as dívidas e os custos que impedem a retomada dos lotes;
  • o plano, o prazo e o orçamento para recuperar as áreas subutilizadas.

No caso de Icó–Lima Campos, o levantamento também precisa comparar a situação atual com o quadro documentado em 2004. Só assim será possível afirmar quantos hectares voltaram a produzir e quantos permanecem fora de operação.

A apicultura pode ajudar, mas não substitui a política agrícola

A apicultura e a meliponicultura podem complementar a renda de famílias rurais, favorecer a polinização e criar atividade econômica em áreas onde a agricultura intensiva enfrenta limitações. Além disso, elas exigem menos solo cultivado do que várias cadeias convencionais.

Entretanto, nenhuma atividade isolada resolverá uma falha estrutural. O agricultor ainda precisa de assistência, organização, proteção contra pulverizações irregulares, acesso ao mercado e segurança territorial. Por isso, o IBRAM defende que a retomada dos perímetros inclua apicultores, meliponicultores, agricultores familiares e jovens rurais em um plano integrado.

O Nordeste não precisa escolher entre exportar e incluir

A fruticultura exportadora gera emprego, renda e divisas. Ela representa uma conquista regional que merece reconhecimento. Ao mesmo tempo, o poder público precisa medir quem ficou fora desse crescimento e por quê.

O verdadeiro desenvolvimento não se limita ao volume exportado. Ele aparece quando a água pública gera oportunidades duradouras, quando o pequeno produtor consegue permanecer no lote e quando os filhos enxergam futuro no campo.

O Nordeste já provou que sabe produzir frutas para o mundo. Agora precisa provar que consegue transformar sua infraestrutura hídrica em dignidade para quem vive ao lado dela.


Perguntas frequentes

O crescimento da fruticultura nordestina é falso?

Não. Os dados apresentados pela Band indicam crescimento real da produção. A crítica trata da distribuição desigual das oportunidades e da precisão do percentual usado no título.

Todos os exportadores são grandes produtores?

Não. Pequenos e médios produtores também participam da fruticultura irrigada. No entanto, quem reúne capital, tecnologia, certificação, logística e contratos comerciais possui vantagem competitiva.

Todo o Perímetro Icó–Lima Campos está abandonado?

Não há base atual suficiente para afirmar isso. Uma reportagem de 2004 documentou que 70% da área estava paralisada. O DNOCS precisa divulgar um inventário atualizado para mostrar a situação presente.

Recuperar perímetros antigos elimina a necessidade de assentamentos?

Não. A reforma agrária tem fundamento constitucional. Contudo, a recuperação de infraestrutura já construída deve integrar o planejamento, sobretudo quando pode oferecer água, produção e renda com menor custo público.

IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura
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