Casa abandonada no sertão: não é falta de água

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Casa abandonada no sertão, de alvenaria, sem sinal de ruína, a poucos metros de um açude cheio — é a cena que vídeos recentes registram no semiárido, perto do Açude Araras, e que a própria reportagem do IBRAM sobre o tema já mostrou. Quem vê essa imagem faz sempre a mesma pergunta, e ela é justa: se tinha água, por que a família foi embora?

Por que tem casa abandonada no sertão se a água já chegou?

A resposta mais fácil — “falta d’água” — não bate com a foto. A casa está de pé, o açude está cheio, e mesmo assim ficou vazia. Em relatos registrados por moradores do sertão paraibano e cearense, os mais velhos costumam dar outra explicação: não tem mais quem cuide. O boi, a fruteira, o bicho criado com carinho a vida toda — o neto não quer aquilo para si. E quem sai não vai mais para São Paulo, como antes; vai para a periferia da cidade média mais próxima, atrás de emprego urbano. (Observação qualitativa registrada em relatos de campo — não estatística própria.)

O Instituto Nacional do Semiárido (INSA) confirma o pano de fundo: queda na produção agrícola e ausência de alternativa econômica no território, não a seca isoladamente. Ou seja: a casa abandonada no sertão não é retrato de sede, é retrato de sucessão que não aconteceu e de renda que não existiu mais ali.

Mas o Nordeste não está todo esvaziando — só o sertão seco

Enquanto isso, outra parte do Nordeste está sendo ocupada, não abandonada. Nos antigos perímetros irrigados do DNOCS, terra antes voltada à agricultura familiar vem sendo capitalizada por grandes grupos — processo que estudos e reportagens já descrevem como privatização de território irrigado, com deslocamento de pequeno produtor. Na Serra da Ibiapaba, empresas como a Rosas Reijers e a Cearosa transformaram o clima de altitude num dos maiores polos de rosas do Brasil, gerando emprego formal. É modernização real — só que concentrada onde há água e clima favorável.

A Chapada do Araripe mostra o lado mais grave da mesma lógica: entre 2019 e 2024, o desmatamento na região cresceu 2.847%, cerca de 90% ligado ao avanço de soja e algodão, com produção projetada para chegar a 100 mil hectares em três anos — e 88% desse desmatamento sem autorização. O Araripe é conhecido como a “caixa d’água do sertão”; comprometer sua vegetação ameaça o abastecimento hídrico de municípios ao redor.

Então por que ninguém vem ocupar o sertão semiárido?

Porque não compensa. Capital de fora vai atrás de água ou de solo que valha desmatar — perímetro irrigado, serra fresca, chapada com lençol freático. O sertão raso e seco não oferece isso a ninguém: nem ao pequeno produtor que já morava lá e está saindo, nem ao agronegócio que está chegando em outro canto do Nordeste. É a única faixa de terra que fica de fora dos dois movimentos — não é ocupada por fora, nem tem mais sucessor de dentro.

O que a Lei nº 14.119/2021 tem a ver com a casa abandonada no sertão?

Justamente por não depender de irrigação nem de capital pesado, a apicultura e a meliponicultura remuneradas por PSA são uma das poucas atividades economicamente viáveis para esse sertão seco — e a Lei nº 14.119/2021 já prevê o mecanismo. Ela cita a polinização, de forma literal, como serviço ecossistêmico de suporte (art. 2º, II, “b”), e remunera quem mantém apiários e meliponários com vegetação nativa florida no entorno (art. 2º, III e IV) — o mesmo bioma que já está de pé no sertão, sem precisar de irrigação nem de desmatamento como o do Araripe.

A lei prioriza agricultor familiar e comunidade tradicional (art. 5º, I e VIII; art. 6º, § 2º), e o Decreto nº 13.018/2026 permite monitoramento comunitário simplificado (art. 5º, § 3º) — essencial numa região de produtores dispersos. Um limite precisa ficar claro: o cadastro, isoladamente, não cria direito a pagamento. Isso depende de programa ou contrato, comprovação do serviço e critérios aplicáveis — diferente de apoio pontual (colmeia ou insumo doado sem contrapartida), que tende a não durar. PSA é contrato de mão dupla: só paga se o produtor comprovar o que mantém.

Não há dado que prove que isso, sozinho, segura o jovem no sertão. Mas é uma atividade formal, digital, ligada a contrato — diferente de “tomar conta do gado do avô” — e talvez a única porta de renda de mercado que essa faixa de terra tem, hoje, à disposição.

Para apicultor/meliponicultor: cadastre seu apiário ou meliponário no GeoIBRAM e organize o histórico documental da atividade. O registro pode fortalecer a prevenção, a comprovação de dano e a participação futura em PSA, conforme os critérios aplicáveis. Cadastro gratuito: geoibram.com/cadastro/

Perguntas frequentes sobre casa abandonada no sertão

Por que tem casa abandonada no sertão mesmo com açude cheio perto? Porque a causa mais comum não é a água, e sim a falta de sucessão familiar e de renda no território, segundo relatos de campo e dados do INSA.

O agronegócio que está chegando no Nordeste vai resolver o abandono do sertão semiárido? Não necessariamente. Esse capital vai para onde há irrigação ou solo que valha desmatar — perímetros do DNOCS, Ibiapaba, Araripe — e o sertão seco, sem essas vantagens, fica fora dessa conta.

PSA garante pagamento a quem se cadastrar no GeoIBRAM? Não. O cadastro organiza histórico; o pagamento depende de programa ou contrato e de comprovação do serviço prestado.

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Jeovam Lemos Cavalcante — Direito pela UFC (1974), advogado, promotor de Justiça aposentado, apicultor cearense.


IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura CNPJ: 54.774.141/0001-90 Endereço da Representação: SBS Quadra 02, Bloco S, Edifício Empire Center, Brasília/DF E-mail institucional: contato@geoibram.com Telefone de contato: (61) 99850-2424

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