Casas abandonadas na Caatinga: nem a água está conseguindo conter a nova arribada

admin

Quem atravessa as estradas de terra do semiárido começa a perceber uma mudança profunda. As casas que antes abrigavam famílias aparecem fechadas, uma depois da outra. Algumas já estão abandonadas. Outras ainda possuem moradores, mas permanecem com portas e janelas cerradas, mesmo durante o dia.

Enquanto as vilas, os povoados e as cidades crescem, as moradias espalhadas pelo interior desaparecem.

É importante empregar a linguagem própria da região. No semiárido, nem toda casa rural fica em um “sítio”. A palavra sítio costuma identificar uma propriedade produtiva, muitas vezes dedicada ao cultivo de frutas, localizada em terras mais úmidas, nas vazantes ou nas proximidades de açudes.

O fenômeno que estamos observando é mais amplo. São moradias rurais, casas isoladas, pequenos núcleos familiares e antigas localidades que estão perdendo seus habitantes.

Os vídeos de Felipe Sena revelam aquilo que poucos estão percebendo

Os vídeos produzidos por Felipe Sena, ao percorrer estradas do interior, transformam esse abandono em uma realidade visível.

A câmera registra numerosas casas desocupadas ao longo dos caminhos. Não se trata de uma ou duas construções. As moradias aparecem sucessivamente, cercadas pela vegetação, com os terreiros vazios e as portas fechadas.

Em muitos casos, ainda existem cisternas ao lado das casas. São estruturas construídas por programas governamentais para assegurar água às famílias do semiárido.

As cisternas foram uma conquista importante e melhoraram a vida de milhares de pessoas. Entretanto, os vídeos mostram uma verdade que precisa ser enfrentada: a cisterna permanece, mas a família vai embora.

A água é indispensável, mas não basta. Sem segurança, renda, transporte, serviços públicos e perspectiva para os jovens, a presença de uma cisterna não consegue manter uma família em uma moradia afastada.

Moradias abandonadas até perto dos açudes

O aspecto mais surpreendente aparece quando Felipe Sena registra moradias abandonadas nas proximidades de açudes.

Pasmem: esse abandono pode ser observado até no entorno do Açude Araras.

Durante décadas, considerou-se que a presença da água seria suficiente para assegurar a ocupação humana e criar oportunidades econômicas no semiárido. As imagens, contudo, mostram casas vazias mesmo em áreas próximas de grandes reservatórios.

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Isso significa que o problema atual não pode ser explicado apenas pela seca.

Se existem moradias abandonadas perto de açudes, fica evidente que a água, embora essencial, não resolve sozinha a insegurança, o isolamento, a falta de renda e a ausência de futuro.

Um reservatório pode acumular água. Porém, somente um projeto de desenvolvimento consegue manter pessoas vivendo dignamente ao seu redor.

A nova arribada do semiárido

A palavra arribada faz parte da história do sertão. Durante muito tempo, ela representou a partida das famílias expulsas pela seca, pela fome e pela falta de trabalho.

Hoje, o semiárido enfrenta uma nova forma de arribada.

Nem sempre as famílias deixam a região. Muitas abandonam as casas afastadas e mudam para vilas, povoados ou para a sede do município. Elas procuram proximidade com escola, posto de saúde, comércio, transporte e outras famílias.

A população permanece no município, mas deixa de ocupar o território rural de maneira distribuída.

Por isso, o crescimento de uma vila pode esconder o esvaziamento de uma extensa área ao seu redor. Novas casas aparecem no povoado, enquanto dezenas de antigas moradias ficam vazias nas estradas, nas localidades e nas terras mais afastadas.

A vila cresce. O interior se cala.

A insegurança está expulsando as famílias

A falta de segurança tornou-se um dos fatores principais dessa nova arribada.

Antigamente, portas e janelas permaneciam abertas. Havia gente no terreiro, animais sendo tratados e vizinhos circulando entre as casas. A distância não significava necessariamente isolamento, porque existia uma comunidade presente no território.

Essa realidade mudou.

Mesmo nas moradias que ainda possuem habitantes, portas e janelas permanecem fechadas. As famílias evitam ficar do lado de fora. O medo modifica os hábitos, reduz a convivência e aprisiona o morador dentro da própria casa.

Cada família que parte torna mais vulnerável aquela que permanece. A casa do vizinho fica mais distante. O socorro demora. A circulação diminui, e o território perde sua vigilância natural.

Cria-se um ciclo perverso: o abandono produz insegurança, e a insegurança provoca novos abandonos.

Pouco a pouco, surgem regiões com casas, cisternas e estradas, mas quase sem vida comunitária. É como se o interior estivesse se transformando em um cemitério vivo.

Os jovens não enxergam futuro nas moradias rurais

A situação dos jovens é ainda mais preocupante.

Eles nasceram e cresceram na Caatinga. Conhecem as plantas, os animais, o tempo da chuva, as floradas, os caminhos e as dificuldades da região. No entanto, muitos não conseguem enxergar uma atividade capaz de lhes oferecer renda, segurança e dignidade.

Não basta dizer ao jovem que permaneça no campo. É necessário mostrar como ele poderá trabalhar, ganhar dinheiro, constituir família e viver com tranquilidade.

Sem essa perspectiva, ele parte.

Depois, os pais envelhecem. A casa passa a ser ocupada por apenas uma ou duas pessoas. Em seguida, permanece fechada por longos períodos. Finalmente, transforma-se em mais uma moradia abandonada à margem da estrada.

Nesse processo, não desaparece apenas uma residência. Também se perdem conhecimentos transmitidos por gerações sobre a Caatinga, a criação de animais, as abelhas, as plantas medicinais e a produção de alimentos.

Obras públicas são necessárias, mas não substituem um projeto de futuro

As políticas de construção de cisternas, eletrificação e acesso à água foram fundamentais para o semiárido. O problema não está nessas obras. O problema está em acreditar que a obra física, isoladamente, resolverá todas as causas do abandono.

Uma cisterna oferece água. Ela não oferece segurança.

Uma estrada permite o deslocamento. Ela não cria, por si mesma, uma fonte de renda.

A energia elétrica melhora a vida da família. Entretanto, não garante trabalho para os filhos.

Da mesma forma, a assistência social protege pessoas em situação de necessidade, mas não substitui uma política de desenvolvimento rural.

O auxílio pode ser indispensável para assegurar a sobrevivência imediata. Contudo, quando não está acompanhado de oportunidades econômicas, ele não impede o esvaziamento das moradias rurais.

O semiárido precisa superar o assistencialismo sem abandonar a proteção social. Precisa oferecer uma saída de futuro.

O território perde seus guardiões

Cada moradia abandonada deixa uma parte da Caatinga sem a presença cotidiana de quem conhecia e cuidava daquele lugar.

Com a saída das famílias:

  • desaparece a vigilância comunitária;
  • aumentam o isolamento e a insegurança;
  • deixam de existir pequenas criações de galinhas, caprinos e ovinos;
  • diminuem os quintais produtivos;
  • perdem-se conhecimentos tradicionais;
  • crescem os riscos de incêndios e ocupações irregulares;
  • escolas rurais perdem alunos;
  • enfraquece o comércio das localidades;
  • torna-se mais difícil comunicar crimes e danos ambientais;
  • desaparecem possíveis guardiões da vegetação e dos recursos hídricos.

As consequências atingem também as vilas. Famílias que antes produziam parte dos próprios alimentos passam a comprar quase tudo. Os núcleos urbanos crescem sem empregos suficientes, enquanto extensas áreas rurais deixam de produzir e de gerar renda.

O Pagamento por Serviços Ambientais pode oferecer uma saída

O Pagamento por Serviços Ambientais — PSA — pode ajudar a interromper esse processo, desde que não seja tratado como simples benefício assistencial.

O PSA deve remunerar uma atividade ambiental efetivamente prestada.

Uma família que permanece em uma moradia rural pode conservar a vegetação nativa, proteger a fauna, prevenir incêndios, monitorar recursos hídricos, recuperar áreas degradadas e cuidar dos polinizadores.

Esses serviços possuem valor para toda a sociedade.

A Caatinga conservada protege o solo, favorece a infiltração da água, reduz a erosão, armazena carbono e abriga uma biodiversidade que não existe em nenhuma outra parte do mundo.

Entretanto, a família que conserva geralmente não recebe por isso.

Um programa de PSA poderia remunerar os moradores por atividades como:

  • conservação da vegetação nativa;
  • recuperação de áreas degradadas;
  • prevenção e comunicação de incêndios;
  • proteção das margens de açudes e cursos d’água;
  • acompanhamento da qualidade ambiental;
  • produção de sementes e mudas nativas;
  • manutenção de corredores ecológicos;
  • criação e conservação de abelhas;
  • proteção de polinizadores;
  • prestação de serviços de polinização;
  • monitoramento de pulverizações próximas às comunidades.

Essa remuneração pode transformar a permanência no território em uma atividade reconhecida e economicamente valorizada.

A apicultura pode levar renda sem destruir a Caatinga

A apicultura e a meliponicultura possuem uma relação direta com a conservação da vegetação.

Para produzir mel, pólen, própolis e outros produtos, as abelhas precisam das floradas da Caatinga. Ao mesmo tempo, realizam a polinização de plantas nativas e culturas agrícolas.

Por isso, o apicultor não é apenas um produtor de mel. Ele também presta um serviço ambiental.

Um programa que una PSA, apicultura, tecnologia e monitoramento pode criar novas oportunidades para os jovens. Eles podem trabalhar com geolocalização, rastreabilidade, comercialização digital, acompanhamento das floradas e proteção dos polinizadores.

Entretanto, não basta distribuir colmeias. É preciso assegurar capacitação, assistência técnica, mercado, segurança e proteção contra pulverizações irregulares de agrotóxicos.

Água sem segurança e renda não mantém uma família no campo

As imagens registradas por Felipe Sena precisam provocar uma reflexão nacional.

Se existem moradias abandonadas mesmo perto do Açude Araras, não podemos continuar atribuindo todo o esvaziamento rural apenas à falta de água.

A seca continua sendo um desafio. Entretanto, a nova arribada também nasce da insegurança, do isolamento, da ausência de renda e da falta de perspectiva para os jovens.

As cisternas vazias ao lado das casas fechadas representam uma advertência. O Estado construiu uma infraestrutura importante, mas não conseguiu assegurar todas as condições necessárias para que as famílias permanecessem no território.

A Caatinga não pode virar um território sem gente

O semiárido não precisa apenas de políticas para aliviar a pobreza. Precisa de um projeto de futuro.

Esse projeto deve oferecer segurança, renda, conectividade, transporte, assistência técnica, proteção ambiental e oportunidades para os jovens.

O Pagamento por Serviços Ambientais pode fazer parte dessa transformação. Em vez de remunerar somente depois que a pobreza e o abandono já se instalaram, o poder público e a iniciativa privada podem pagar às famílias que conservam, protegem e mantêm viva a presença humana no território.

Cada moradia ocupada ajuda a preservar uma comunidade. Cada família presente representa proteção, conhecimento e vigilância sobre uma parte da Caatinga.

Se nada for feito, as vilas e cidades continuarão crescendo enquanto as estradas do interior se transformam em longos corredores de casas fechadas.

O vídeo de Felipe Sena torna esse processo impossível de ignorar.

A água chegou a muitas dessas moradias. O que ainda não chegou foi uma saída de futuro.

Jeovam Lemos Cavalcante
Promotor de Justiça aposentado
Presidente do Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura — IBRAM

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