Imagina que você não é especialista em nada disso — é só um leitor comum tentando entender se há agrotóxico na água que sai da sua torneira. Você lê o jornal, vê uma notícia aqui, outra ali. Um dia resolve juntar tudo numa aba só do navegador. Foi mais ou menos isso que aconteceu nesta semana. E o resultado assusta.
“Espera, o veneno proibido lá fora é vendido aqui?”
A primeira coisa que salta aos olhos é uma contradição básica. O diquate é um herbicida “primo” do paraquate. O Brasil baniu o paraquate em 2017, por suspeita de ligação com câncer e Parkinson. Já o diquate, a Inglaterra e a Suíça proíbem desde 2018 — o risco para trabalhadores e moradores de áreas rurais é alto demais.
A Suíça sedia a empresa que mais vende diquate no Brasil. Essa empresa fabrica boa parte do produto na própria Inglaterra e embarca a maior parte direto para cá.
Ou seja: um país proíbe o produto por ser perigoso demais até para quem só mora perto da lavoura. Ao mesmo tempo, esse país fabrica e exporta o mesmo produto para o Brasil. Aqui, qualquer um compra livremente. O uso já multiplicou por dez desde que o Brasil baniu o “parente” dele.
O leitor comum pergunta no Google: “por que um produto banido na Europa continua sendo vendido no Brasil?” A própria fabricante responde: não ser aprovado em outro país não significa necessariamente que foi proibido por riscos. Mas os números batem de frente com esse discurso. Entre 2018 e 2025, os casos de intoxicação por esse produto no Brasil saltaram de seis para 71 por ano. É um crescimento de mais de 1.000%. Inclui mortes por acidente e, principalmente, por suicídio.
Tem agrotóxico na água que sai da sua torneira?
Aí vem outra pergunta natural: “e a água que eu bebo, tem agrotóxico?” Na Bahia, um projeto de lei quer obrigar as companhias de saneamento a avisar isso na própria conta de água. A ideia é simples: se o sistema de abastecimento tem resíduos de agrotóxicos, o consumidor precisa saber.
A proposta nasceu de um levantamento recente. Ele encontrou dezenas de substâncias diferentes, ao mesmo tempo, na água de pelo menos cinco cidades baianas. Especialistas chamam isso de “efeito coquetel” — vários venenos juntos na mesma amostra.
O detalhe incômodo aqui é que a lei brasileira só define limite máximo para cada substância isolada. Ninguém regula o que acontece quando vinte ou trinta substâncias químicas diferentes atingem um corpo ao mesmo tempo, todo santo dia, só de tomar água da torneira. É agrotóxico na água, sem aviso, sem explicação — até que uma lei como essa exija que ele apareça na fatura.
“Os drones estão pulverizando o quê, exatamente?”
Enquanto isso, o mercado de drones agrícolas pulverizadores vive um boom no Brasil. Mais de 11 mil novos equipamentos entram em operação neste ano. É um crescimento de quase 40% em relação ao ano passado. O setor já movimenta bilhões de reais.
A promessa é linda no papel: menos água, mais velocidade, mais precisão. Mas as reportagens de mercado não detalham uma coisa: o que exatamente esses drones estão espalhando com tanta eficiência. Mais tecnologia para espalhar veneno mais rápido não é, por si só, uma boa notícia. É só uma notícia mais rápida.
“E as abelhas, sobrevivem a tudo isso?”
Um estudo recente de uma universidade americana mostra outro lado do problema. O glifosato é o herbicida mais usado do planeta. Ele pode alterar o funcionamento do cérebro das abelhas. Isso prejudica a capacidade delas de buscar alimento. No longo prazo, ameaça a estabilidade das colônias inteiras.
Não é uma morte instantânea e visível. É um dano silencioso, que só aparece quando a colmeia já não consegue mais se sustentar.
Para quem trabalha com apicultura e meliponicultura, esse tipo de dado não é estatística distante. É o motivo pelo qual colmeias inteiras somem sem explicação aparente.
A pergunta que ninguém responde: quanto agrotóxico está realmente na água e no prato do brasileiro?
E é aqui que o leitor comum trava. Os números “oficiais” já impressionam por si só. Levantamentos recentes com base em dados do Ibama apontam quase 900 mil toneladas de agrotóxicos vendidas no Brasil em 2024. Isso equivale a mais de 4 kg de veneno por habitante. O consumo cresceu mais de 45% desde 2019.
O Brasil também importa mais agrotóxico do que qualquer outro país do mundo. E, em números absolutos — sem dividir por hectare ou por tonelada de alimento — o Brasil consome mais agrotóxico do que qualquer outro país do planeta.
Mas esse número é só o que está registrado. E o leitor pergunta, com toda razão: e o que não entra na conta? Quanto agrotóxico contrabandeado cruza as fronteiras sem passar por nenhuma fiscalização? Quanto produto falsificado circula nas lavouras sem aparecer em nenhuma estatística do Ibama, da Anvisa ou do Mapa? Um produto falsificado costuma ser ainda mais perigoso, porque ninguém controla sua formulação. Nenhuma dessas duas perguntas tem resposta oficial. Por isso, os números já assustadores provavelmente ficam aquém da realidade.
O que fica, no fim: agrotóxico na água, no prato e no ar
Junte as peças. A Europa proíbe um herbicida que o Brasil vende cada vez mais. A água chega às torneiras com agrotóxico que ninguém avisa que está lá. Drones pulverizam cada vez mais rápido. Abelhas perdem a capacidade de voltar para casa. E o volume oficial — quase 1 milhão de toneladas por ano — nem inclui contrabando ou falsificação. Cada notícia, sozinha, já preocupa. Juntas, formam um retrato que nenhuma reportagem isolada consegue mostrar.
O Brasil não disputa essa liderança por acaso, nem por “eficiência agrícola”, como alguns discursos tentam emplacar. O problema é outro: hoje não existe um único lugar onde essas informações apareçam juntas, visíveis, cobrando explicação de quem deveria dar uma.
As ferramentas que nasceram desse mesmo incômodo
O IBRAM desenvolveu, nos últimos meses , um conjunto de plataformas para tirar esse tipo de informação do campo da suposição:
- GeoIBRAM — cadastra apiários e meliponários por georreferenciamento e emite alertas de pulverização para quem está no raio de impacto. Apicultores, produtores rurais, operadores de drone, associações, instituições e cidadãos podem registrar ocorrências pela plataforma.
- IBRAMRadar — verifica, por CPF ou CNPJ, se existem autos de infração ambiental na base do Ibama. Uma equipe multidisciplinar orienta produtores rurais e apicultores na regularização.
- PSA GeoIBRAM — a Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura (CBA) adotou essa metodologia como sistema oficial de comprovação para o Pagamento por Serviços Ambientais de polinização, previsto na Lei nº 14.119/2021 e regulamentado pelo Decreto nº 13.018/2026. O cadastro georreferenciado das colmeias no GeoIBRAM, cruzado com a área de vegetação nativa do CAR, gera o lastro técnico (MRV) que habilita o apicultor a receber pelo serviço ecossistêmico das abelhas. De quebra, mantém o mesmo raio de salvaguarda de 6 km contra pulverizações.
São três frentes que tentam responder à pergunta deste texto: onde estão os dados, quem fiscaliza e quem paga a conta de proteger quem poliniza o país.
Fontes consultadas: Repórter Brasil/Public Eye (via IHU On-Line), Bahia Notícia Política, Agência Safras, Revista Galileu/G1, A Tribuna, Brasil de Fato, ((o))eco/IHU, CEE Fiocruz.
Jeovam Lemos Cavalcante
Apicultor e membro da Câmara Setorial do Mel do Ministério da Agricultura, representando a Câmara Temática do Mel do Ceará. Fundador do Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (IBRAM), idealizador da plataforma GeoIBRAM, do RadarIBRAM e da metodologia do PSA.

