O maior consumidor de agrotóxicos do planeta não avisa quem está embaixo do drone

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O Brasil é o maior consumidor de agrotoxico do planeta

O uso de agrotóxicos no Brasil segue sendo um fantasma da alimentação mundial. E não é uma imagem de retórica: os números tornam isso concreto assim que se olha o volume aplicado, o uso por hectare e a fiscalização de perto.

Agrotóxicos no Brasil: o que aparece nos alimentos

O Guia do Consumidor para Pesticidas em Produtos Frescos 2026, do Environmental Working Group (EWG), analisou mais de 54 mil amostras de 47 frutas e vegetais testadas pelo USDA. O resultado é direto: três em cada quatro produtos cultivados de forma convencional carregam resíduos químicos. No grupo mais contaminado — o “Dirty Dozen”, liderado por espinafre e couves — esse índice sobe para praticamente todas as amostras.

A novidade de 2026 é outra camada de preocupação: o mapeamento de compostos PFAS, os chamados “químicos eternos”, presentes nesses defensivos. Essas substâncias não se decompõem facilmente no ambiente nem no corpo humano. Elas apareceram em boa parte das amostras mais contaminadas e já são associadas a disfunção hormonal, problemas de tireoide e maior risco de câncer.

Nem tudo é alarme, porém. Do outro lado da lista está o “Clean Fifteen” — abacaxi, milho, abacate, entre outros —, onde casca grossa e cultivo mais simples reduzem bastante a exposição a resíduos.

Agrotóxicos no Brasil: líder em qualquer métrica que se use

A discussão sobre se o Brasil é “o maior consumidor de agrotóxicos do mundo” costuma parar num impasse. A indústria — Bayer e Syngenta, principalmente — argumenta que o volume total é enganoso, já que o país tem mais terra cultivada e mais safras por ano do que EUA ou Europa. É um argumento razoável. Mas ele não resiste à checagem dos números normalizados.

Segundo dados da FAO analisados por pesquisadores da USP, em 2021 o Brasil aplicou 719,5 mil toneladas de agrotóxicos em suas lavouras. Isso é mais do que China (244 mil toneladas) e Estados Unidos (457 mil toneladas) somados. O dado que realmente neutraliza o contra-argumento da indústria, porém, é outro: por hectare cultivado, o Brasil usa 10,9 kg de agrotóxicos, contra 2,85 kg dos EUA e 1,9 kg da China. Em termos per capita, são 3,31 kg por brasileiro, contra 1,36 kg por norte-americano e 0,17 kg por chinês. Mesmo normalizado por área ou por pessoa — exatamente a correção que a indústria pede — o Brasil segue na frente.

Nesse cenário, a tecnologia de aplicação só acelera o processo. Drones agrícolas como o Agras T55, apresentados recentemente no país, prometem cobrir até 50 hectares por hora, operar em terrenos de difícil acesso e substituir máquinas terrestres em dias de chuva. É eficiência real. Mas é eficiência aplicada a um sistema que já usa mais agrotóxico por hectare do que qualquer outro grande produtor agrícola do planeta.

A fiscalização que existe no papel, mas falha na prática

Se o volume de agrotóxicos no Brasil é tão alto, por que a fiscalização não segura isso? A resposta tem duas partes.

A primeira é a “receita de balcão”. A venda de agrotóxico no país exige um receituário agronômico — um documento que deveria funcionar como uma prescrição médica, emitido só depois de o profissional visitar a lavoura. Na prática, porém, investigações do Ministério Público já flagraram engenheiros agrônomos que emitem essas receitas sem sequer visitar o campo, num ritmo industrial, apenas para formalizar a venda. Falta um limite oficial de quantas receitas um profissional pode emitir. É exatamente essa lacuna que permite o descolamento entre a norma, rigorosa no papel, e a prática, frouxa no campo.

A segunda parte é mais recente e mais concreta. A pulverização aérea por drones cresceu de forma acelerada nos últimos anos. Ela está sendo aplicada sobre normas que já existiam antes dos drones existirem — e que, segundo entidades do setor apícola, estão sendo sistematicamente ignoradas.

O caso que coloca essa omissão na Justiça

É aqui que a discussão sobre agrotóxicos no Brasil deixa de ser abstrata. A Confederação Brasileira de Apicultura e Meliponicultura (CBA) e o Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura (IBRAM) movem uma ação civil pública contra a União. O pedido não é o banimento de nenhum produto. É o cumprimento efetivo de três normas federais que já existem:

  • IN MAPA nº 02/2008 — zonas mínimas de exclusão para pulverização aérea: 500 metros de povoações e moradias, 250 metros de moradias isoladas e apiários.
  • IN Conjunta MAPA/ANVISA/IBAMA nº 01/2012 — obrigação de notificar apicultores e meliponicultores num raio de 6 km, com 48 horas de antecedência, antes de qualquer pulverização aérea.
  • Portaria MAPA nº 298/2021 — equipara drones à aviação agrícola tripulada, tornando as duas normas acima aplicáveis também à pulverização por drone.

O argumento central da ação é direto. Essas regras foram criadas quando só existiam aeronaves tripuladas, mas continuam plenamente vigentes. E a proliferação de drones — muitos com capacidade de até 300 litros de agrotóxico por carga, operando a baixa altitude sobre comunidades rurais e apiários — tornou a omissão em fiscalizá-las ainda mais grave. Por isso a ação não pede a criação de regra nova. Ela pede que toda pulverização comprove, antes de ocorrer, que a notificação e as distâncias mínimas foram respeitadas, por qualquer meio que a própria administração escolher — bastando um comprovante georreferenciado.

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O processo já passou por uma decisão de primeira instância que declarou a Justiça do Trabalho incompetente para julgar o caso. Está agora em recurso, sustentando que a matéria é, sim, trabalhista: a omissão do MAPA expõe não só apicultores, mas trabalhadores rurais, professores de escolas rurais, agentes de saúde comunitários e prestadores de serviço no campo à deriva química sem qualquer aviso prévio.

Conclusão: o problema não é o produto, é quem fiscaliza o uso

Os dados e o caso jurídico contam a mesma história por ângulos diferentes. O Brasil não é só o país que mais usa agrotóxico em volume absoluto. É também um dos que mais usa por hectare e por habitante, mesmo depois de aplicadas as correções que a própria indústria pede.

Ao mesmo tempo, os mecanismos que deveriam conter esse uso — receituário agronômico, zonas de exclusão, notificação prévia — existem no papel desde 2008 e 2012. Mas dependem de fiscalização que, na prática, tem lacunas documentadas: profissionais que assinam receitas sem visitar o campo, e agora, pulverizações por drone que ocorrem sem qualquer aviso às comunidades e apiários vizinhos.

Não é preciso recorrer a nenhuma hipótese especulativa para sustentar que o sistema de agrotóxicos no Brasil está sob tensão. A evidência é o próprio conjunto: mais resíduo nos alimentos, incluindo compostos persistentes como PFAS; mais volume aplicado por área do que em qualquer outro grande produtor agrícola; mais tecnologia dedicada a aplicar com velocidade e escala; e normas de proteção que existem há quase duas décadas, mas que, segundo a própria ação judicial em curso, não estão sendo cumpridas na prática. O ponto de virada não é proibir o uso de agrotóxico. É fazer cumprir as regras que já protegem quem está no campo.

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