O Estadão Premiou um Iogurte “com Mel”. Só que o Mel Quase Não Existe no Pote.

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Categoria: Mel & Mercado | Defesa do Consumidor
Autor: IBRAM Brasil — Instituto Brasileiro de Apicultura e Meliponicultura | Março de 2026

O Prêmio que Esconde uma Pergunta Importante

Imagine que você pede um sorvete de morango. Quando chega, ele vem branco — mas com aroma de morango, corante vermelho e uma raspadinha de fruta. Você chamaria isso de sorvete de morango?

É exatamente essa pergunta que o Estadão deveria ter feito — e não fez.

Em agosto de 2025, o caderno Paladar publicou um ranking com sete marcas de iogurte grego. O iogurte Vigor com mel ganhou o terceiro lugar — o Selo Bronze. O jornal republicou a matéria em março de 2026. Os jurados elogiaram a textura e o sabor.

Contudo, o iogurte premiado leva açúcar no lugar do mel. O ingrediente que substitui o mel chama-se “preparado de mel” — e esses dois produtos não têm nada em comum.

O que é o “Preparado de Mel”?

Pense numa calda escura, com cheiro e cor de mel. O fabricante a faz principalmente com açúcar e água. Para ter a cor certa, acrescenta corante. Para ter o cheiro certo, acrescenta aroma artificial. E para poder usar a palavra “mel” no rótulo, adiciona um pouquinho de mel de verdade — só o suficiente para justificar o nome.

Essa calda chama-se “preparado de mel”. Por isso, é o que vai no iogurte.

As receitas oficiais de dois fabricantes vieram a público em processos judiciais federais. Os documentos são públicos. Veja a composição típica:

  • Açúcar: 50 a 65%
  • Mel de verdade: 10%
  • Corante: sim (para ter cor de mel)
  • Aroma sintético: sim (para cheirar a mel)
  • Mel real num pote de 90g de iogurte: menos de 0,4 g

Uma colher de chá de mel tem cerca de 7 gramas. Portanto, o pote inteiro de iogurte “com mel” carrega menos de meio grama de mel real. O sabor que você sente vem do aroma sintético — não das abelhas.

O Júri Avaliou o Sabor. Mas Qual Sabor?

Os especialistas do Paladar são profissionais sérios da gastronomia. Eles avaliaram o produto às cegas — sem saber a marca, sem ver o rótulo. O fabricante desenvolveu o preparado de mel exatamente para isso: enganar o nariz e a língua. Ademais, com corante e aroma sintético, o produto entrega uma experiência que parece mel.

Os jurados aprovaram uma simulação — sem saber disso. O problema não está neles. Está no Estadão: o jornal premiou o produto sem explicar ao leitor que o “mel” ali é, na prática, açúcar disfarçado.

Os Órgãos do Governo Já Reconhecem o Problema

O Ministério da Agricultura admitiu, em documento oficial, que o preparado de mel “não pode ter a caracterização de produto das abelhas” — porque carrega menos de 50% de mel e usa ingredientes que a regulação proíbe em derivados apícolas.

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Por sua vez, a ANVISA concluiu que produtos com esse preparado “não podem fazer alusão ao uso de mel como componente” — porque induzem o consumidor a erro sobre o conteúdo da embalagem.

Portanto, os dois órgãos federais chegaram à mesma conclusão: usar a palavra “mel” nesse produto engana quem compra.

O Brasil Coleciona Títulos Internacionais com o Mel de Verdade

Enquanto a indústria vende açúcar aromatizado como mel, os apicultores brasileiros colhem premiações internacionais com o produto genuíno. A marca catarinense Baldoni é um exemplo concreto.

Na 46ª Apimondia International Apicultural Congress — realizada em Montreal em 2019 —, a Baldoni conquistou Medalha de Ouro com o Saboramel MasterChef e Medalha de Prata com seu Mel Orgânico. Além disso, a empresa acumula vitórias no London Honey Awards e no Paris International Honey Awards.

Nesse sentido, o resultado não é coincidência. O Brasil tem clima diverso, flora nativa abundante, abelhas únicas e apicultores dedicados do Ceará ao Rio Grande do Sul. Merecem destaque, nesse sentido, Santa Catarina, o Piauí e a própolis verde de Minas Gerais.

O Paradoxo do Mel Brasileiro

O Brasil produz um dos melhores méis do mundo — especialmente no Nordeste. Contudo, os produtores exportam quase toda a produção de alta qualidade para os EUA e a Alemanha. Enquanto isso, o mercado interno recebe preparados de mel — xaropes de açúcar com aromas sintéticos.

O resultado revela um paradoxo em três pilares:

  • Concorrência desleal: o produto sintético custa muito menos que o mel puro, expulsando o apicultor do varejo nacional.
  • Maquiagem industrial: desde 2007, a indústria substituiu o mel real por fórmulas químicas, aproveitando brechas na rotulagem para confundir o consumidor.
  • Conivência midiática: quando grandes jornais ignoram a diferença técnica entre mel e xarope, legitimam um produto inferior e mantêm o público desinformado.

O que a CBA e o IBRAM Estão Fazendo

A CBA e o IBRAM Brasil ajuizaram ações na Justiça Federal pedindo o cancelamento dos registros que autorizam o uso do preparado de mel. As ações tramitam no Ceará, no TRF5 e em Brasília.

Porém, a batalha judicial precisa de apoio. Para que a voz dos apicultores chegue aos tribunais e aos órgãos reguladores, é preciso mostrar a força do setor.

Quer entender como o serviço ecossistêmico das abelhas se conecta a essa luta e o que está em jogo para o setor apícola? O IBRAM detalhou o tema neste artigo.

Apicultor: Você Pode Fazer Parte Disso

O IBRAM Brasil criou o GeoIBRAM — plataforma gratuita para apicultores registrarem suas colmeias e integrarem um mapa nacional da apicultura.

Cada cadastro fortalece a cadeia produtiva do mel genuíno. Assim, o setor ganha visibilidade real junto aos órgãos reguladores. Além disso, o registro mostra ao mercado que o mel brasileiro tem nome e endereço.

O mel que você produz merece reconhecimento. As abelhas que você cuida merecem visibilidade. E o consumidor merece saber a diferença entre mel de verdade e açúcar com fantasia de favo.

👉 Cadastre-se gratuitamente no GeoIBRAM — Mostre que o mel brasileiro existe, tem nome e tem endereço.

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